«Ilusionismos» da União Europeia

Pedro Guerreiro

As reacções da União Europeia perante as medidas anunciadas pelo governo grego, na sequência das eleições realizadas a 25 de Janeiro neste país, colocam em evidência o imenso cinismo e hipocrisia em torno da propalada «solidariedade» e «ajuda» da UE ao povo grego.

Uma política de esquerda ou é patriótica ou não será de esquerda

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Para a União Europeia e o seu Eurogrupo, o que importa assegurar a todo o custo é a continuação da política de saque que tem vindo a ser sustentada na incomensurável dívida pública grega e na intensificação da exploração dos trabalhadores gregos e da sua condenação ao empobrecimento. Uma política que, plasmada nos chamados «memorandos», tem vindo a ser ditada pela União Europeia e o FMI e realizada por sucessivos governos gregos.

Daí que, por exemplo, a Comissão Europeia, mostrando dotes na arte do «ilusionismo», acene com benévolas «concessões» e «gestos de boa vontade», como a «dissolução» da troika, mas logo advertindo que só no caso da Grécia cumprir com «todos» os «compromissos» que assumiu aquando da entrada da troika no país. Acrescenta ainda a Comissão Europeia que poderá ser facilitado o pagamento da dívida (alargamento dos prazos, com renegociação dos juros), mas só no caso de a União Europeia (que integra a troika) continuar a ditar a política dos «memorandos» ao povo grego. Ao que parece, a Comissão Europeia chama «solução de compromisso» a tal ideia.

Isto é, a União Europeia procura «tão só» assegurar a continuidade da política que levou a Grécia ao desastre económico e social, à sua colossal dívida pública e à dependência externa, prosseguindo a aplicação dos instrumentos, dos mecanismos e das orientações da União Europeia e do euro onde, afinal, essa mesma política está definida e se sustenta a sua imposição.

A inaceitável atitude de confronto da União Europeia com a vontade de mudança política soberanamente expressa pelo povo grego evidencia que a solução dos graves problemas económicos e sociais que afectam não só a Grécia, mas igualmente a generalidade dos países na União Europeia, coloca a exigência da ruptura com o quadro e normas supranacionais que, assegurando o domínio político, impõem o domínio económico das grandes potências – nomeadamente da Alemanha – e dos seus grandes grupos económicos e financeiros. Uma situação que confirma a importância da salvaguarda e afirmação da soberania e independência nacionais para a defesa dos interesses e a concretização das aspirações dos trabalhadores e dos povos, não só da Grécia, mas também dos outros países na União Europeia.

Política patriótica e de esquerda

Em Portugal, se a política de direita que tem vindo a ser realizada pelo PS, PSD e CDS tem no condicionamento da soberania e na dependência nacional – nomeadamente no quadro da União Europeia – um dos seus pilares fundamentais, a ruptura com essa política e a política alternativa de esquerda que se impõe têm, necessariamente, que estar sustentadas na afirmação e pleno exercício da soberania e independência nacionais – ou seja, a política de esquerda ou é patriótica ou não será de esquerda.

Política patriótica e de esquerda porque, como o PCP há muito afirma, o novo rumo e a nova política de que Portugal precisa têm de romper com a crescente submissão e subordinação externas, e recolocar no centro da orientação política a afirmação de um desenvolvimento económico soberano, a redução dos défices estruturais, a defesa intransigente dos interesses nacionais, articulada com a necessária cooperação no plano europeu e internacional. Para o PCP, a dimensão patriótica é indissociável, integra e está presente nos múltiplos eixos e orientações da política alternativa de que os trabalhadores, o povo e Portugal necessitam.

Política alternativa que, entre outras opções fundamentais, passa pela renegociação da dívida de acordo com os interesses nacionais; pelo estudo e preparação do País para a sua libertação do domínio do euro; por uma decidida política de aposta na produção nacional; pelo reforço do poder de compra dos trabalhadores e do povo; pelo controlo público dos sectores estratégicos, nomeadamente o sector financeiro; pela defesa e promoção dos serviços públicos; pelo combate à injustiça fiscal; por uma política que afirme o primado dos interesses do País e a defesa da soberania e independência nacionais.

Política patriótica e de esquerda que face ao rumo de exploração, empobrecimento e declínio nacional, se afirma com toda a sua actualidade e cuja concretização está nas mãos do povo português, através da sua luta para abrir um caminho vinculado aos valores de Abril.



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