A crítica para além dos factos
LUSA
De todos os acontecimentos se podem reter ensinamentos, mesmo se alguém nos salta ao caminho «empunhando um fuzil» e, acto continuo, diga alto aí, passa para cá os ensinamentos todos, essas capacidades de entendimento, de análise e de crítica e, já agora, também esses pensamentos que estás a tentar esconder. O contrário significaria a desgraça de um homem, deixá-lo-ia, por assim dizer, de calças na mão, não haveria quem nos valesse nem solução que nos remediasse. Põe-se um homem a ler, a ouvir ou a ver na televisão uma notícia e antes mesmo de dar por isso já está em perigo, tanto mais se se tratar de notícia que reúna dor e comoção, é o cabo dos trabalhos se tiver a ousadia de perguntar como é que tal aconteceu, mais ainda se perguntar porquê, movem-se as placas tectónicas do planeta se alguém ousar questionar a versão difundida, havendo no entanto sempre quem o faça. Atente-se ao exemplo que se segue. O atentado no jornal francês Charlie Hebdo e o assassinato de vários dos seus membros provocou uma reacção de generalizada e justificada condenação. Um acontecimento explorado até à exaustão. Repetiram-se reacções de consternação e apelos à unidade contra um suposto inimigo comum incluindo de criminosos de guerra como o primeiro-ministro de Israel, procurando esconder as suas responsabilidades. Impôs-se medidas repressivas requentadas e servidas como ração de combate, um assalto à consciência e à inteligência de milhões de pessoas que, por omissão de uma crítica séria e honesta e por vontade dos governos e da UE são empurradas para um círculo crescente de expressões de racismo, de xenofobia e outras formas de ódio, para o apoio a partidos de extrema-direita e fascistas em vários países da Europa - como o demonstram as manifestações contra os muçulmanos e os seus locais de culto. Os mesmos governos - e a própria UE - que, dominados pela direita e pela social-democracia, acentuam as políticas de agressão e guerra, de ingerência externa, de violação das soberanias dos povos - actos cuja designação não pode ser outra que terrorismo de Estado. As mesmas políticas e os mesmos protagonistas que apoiam e financiam grupos armados que um pouco por todo o mundo recrutam jovens sem perspectiva de futuro ou cuja perspectiva surge ligada a actividades criminosas e ao terrorismo inspirado em ideologias de extrema-direita. Os povos são empurrados para situações de tensão social que crescem na medida em que se acentua a crise da UE, com medidas de suposto combate à crise que a aumentam, gerando desemprego em massa, particularmente entre os jovens, destruindo os direitos dos trabalhadores, serviços públicos fundamentais, a protecção social, ou quando crescem verdadeiros guetos sociais para onde são empurrados os desempregados, os mais pobres, os indigentes, os imigrantes e as suas famílias. Sem nada fazer que o justifique, consideram-nos a todos potenciais criminosos, todos somos o alvo de medidas que nos retiram direitos, liberdades e garantias em troca de uma segurança que se degrada e se subverte.
Muitos países e povos africanos e do Médio Oriente são ainda mais amarrados a políticas neocoloniais e simultaneamente esmagados pela agressão, flagelados pela guerra, pelo aprofundamento de divisões económicas, sociais e políticas, expressões de sectarismo religioso, e pela imigração. O assalto às consciências lança o medo em que cresce a incompreensão e perigosas divisões nas sociedades, situação que visa em primeiro lugar esconder que na origem destes fenómenos se encontra uma profunda crise do capitalismo de que são causa e consequência, milhões de jovens a quem tudo falta e a quem, muitas vezes, a criminalidade surge como forma de sobrevivência e de afirmação pessoal. Ninguém pode ficar indiferente perante um caldo de cultura que em vez de gerar unidade e solidariedade entre os povos os afasta, tornando-os inimigos em causa alheia. Para poderem avançar as sociedades necessitam de analisar criticamente estes acontecimentos e a sua extrema complexidade, de outra forma regridem.