Acrisolado
A ajuda do português Durão Barroso ao seu País na presidência da UE foi dizer que, se Portugal não cumprir os ditames da troika, «está o caldo entornado».
Em vez de se indignar, o Presidente Cavaco optou por agraciá-lo há dias com um colar, ao mesmo tempo que declarava devermos «ter orgulho».
Orgulho por um homem que «entorma sempre o caldo» para agradar a quem nele manda?
Dias depois, a presidencial figura debitaria mais uma transumância, quiçá para a montanha, que é dura de galgar: «As próximas eleições serão na data prevista. Ponto final».
O «ponto final» equivale a condenar o País à subida da montanha durante um ano, sofrendo um Governo dos mais odiados em democracia.
Finalmente, o autoritarismo de Cavaco foi ao ponto de «dar ordens» ao próximo Governo, «que terá de ser maioritário», embora, em fim de mandato, esteja impedido constitucionalmente de dar palpites sobre alianças. Entretanto, na «crise do irrevogável» Portas, em Junho de 2013, já não havia limitações constitucionais na antecipação de eleições, desde que o PS se comprometesse a um aliança prévia com o PSD e o CDS. Hoje, transumou de novo a opinião e adverte que «não contem com o Presidente para ir contra a lei e a Constituição», o que provoca gargalhadas por ser do Presidente que, em sucessivos orçamentos do Estado deste Executivo, não mexeu uma palha perante flagrantes inconstitucionalidades, assobiando às cagarras quando o TC as chumbou sucessivamente.
Há quem historie a longa vida pública de Cavaco como um trajecto com sentido de oportunidade e sageza. Hoje, cresce exponencialmente a constatação de que o homem, ao invés, não é oportuno mas oportunista e a sua sageza se situa, concêntrica, à volta do umbigo.
Até ir «fazer a rodagem ao carro» à Figueira da Foz para ser eleito presidente de um PSD de novo órfão de liderança, o homem seguiu disciplinadamente as regras fascistas, incluindo a participação aprumada na guerra colonial, a assinatura da infame declaração anticomunista e todo o empenho em «não se meter em políticas», mas cuidar da vidinha.
A sua entrada na política começou em 1985 (e já sem cartão de informador da PIDE, que está na Torre do Tombo), foi primeiro-ministro durante doze anos, saindo inopinadamente em 1995 e abandonando o PSD à chefia atarantada de Fernando Nogueira. Concorreu de seguida três vezes às presidenciais, sendo batido na primeira e vitorioso rés-vés nas outras duas. Neste longo percurso agiu ao sabor das suas ambições e sem pinga de sageza para elidir o seu passado antidemocrático.
Este segundo mandato mostrou-o como único sustentáculo do Governo e da sua política cripto-fascista, deixando para a História um perfil de acrisolado reaccionarismo, onde se tem mirado com enlevo.