NYT continua a pressionar Obama

Contra o boicote a Cuba

O diário norte-americano The New York Times voltou a dedicar a Cuba o seu editorial de domingo, 17, desta feita para condenar os EUA por incentivarem a emigração de médicos cubanos.

Cuba tem um dos índices mais altos de médicos per capita do mundo

Pela sexta vez em pouco mais de um mês, o influente jornal critica a política da Casa Branca relativamente a Cuba, assinalando que entre os muitos aspectos condenáveis das políticas falhadas para desestabilizar a ilha – incluindo o bloqueio que lhe impõe desde 1962 – se destaca o programa destinado a fomentar a fuga de médicos durante missões oficiais no estrangeiro, o que na sua opinião é difícil de justificar.

Só em 2014, refere o jornal, citando fontes oficiais norte-americanas, emigraram de Cuba 1278 médicos; entre 2006 e 2014, esse número ascende a 5490. Para o NYT é absurdo que o secretário de Estado Jonh Kerry e a embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, Samantha Power, elogiem o trabalho dos médicos cubanos que estão a combater a epidemia de ébola em África e ao mesmo tempo persistam os planos para roubar a Cuba o seu potencial médico.

«É uma incongruência que os Estados Unidos valorizem as contribuições dos médicos cubanos enviados pelo governo para prestar ajuda em crises mundiais, como a do terramoto do Haiti em 2010, ao mesmo tempo que procuram desestabilizar o Estado (cubano) promovendo as deserções», assinala o editorial, fazendo notar que a política de apoio à fuga de cérebros é um erro, sobretudo quando se deveria investir na melhoria das relações entre os dois países.

O editorial, intitulado A cuban brain drain, courtesy of U.S. (A fuga de cérebros cubanos, cortesia dos EUA), sublinha o facto de Cuba ter um dos índices mais altos de médicos per capita do mundo, e de oferecer anualmente bolsas de estudo de saúde a centenas de estudantes de diferentes países, incluindo estudantes norte-americanos.

Sublinhando que o importante trabalho dos médicos cubanos no mundo, 46 mil dos quais em países da América Latina e Caribe e cerca de quatro mil em 32 países africanos, é posto em causa com o roubo de cérebros fomentado pelos EUA, o NYT conclui que «enquanto se mantiver esta política incoerente, continuará a ser difícil estabelecer uma relação mais saudável entre os dois países».

Um longo historial

A 10 de Novembro, noutro editorial sobre Cuba – In Cuba, Misadventures in Regime Change (Em Cuba, desventuras de tentar derrubar um regime) – o NYT passou em revista algumas das manobras levadas a cabo por Washington contra Havana desde a aprovação da famigerada Lei Helms-Burton, em 1996, até aos dias de hoje.

O jornal destaca, entre outros aspectos, que o governo norte-americano gastou 264 milhões de dólares nos últimos 18 anos em programas subversivos contra Cuba, que longe de terem atingido os seus objectivos tiveram o efeito perverso de se «transformar num chamariz para charlatães e ladrões».

«Os programas secretos agravaram a hostilidade entre os dois países e bloquearam oportunidades de cooperação em áreas de interesse mútuo», refere o jornal, que aponta a Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID) como um dos veículos para a desestabilização de Cuba.

Fazendo notar que o investimento para derrubar o governo de Havana registou aumentos de milhões de dólares por ano, ultrapassando os 20 milhões em 2004, durante o consulado de George W. Bush, o editorial do NYT revela que essas verbas provenientes dos fundos federais foram canalizadas para diversos grupos cubano-americanos anticastristas, que os terão utilizados sem grande controlo e por vezes até de forma caricata, como é o caso do grupo que enviou um considerável número de revistas humorísticas à missão diplomática dos EUA em Havana, para grande perplexidade dos funcionários.

O jornal lembra ainda que o Congresso norte-americano autorizou, em 2008, uma verba recorde de 45 milhões de dólares para os projectos de desestabilização de Cuba; a prisão de Alan Gross pelas autoridades cubanas, em Dezembro de 2009, quando contrabandeava equipamento de comunicações ao serviço da USAID; e a denúncia da Associated Press (AP), em Agosto último, de que a USAID enviava jovens latino-americanos para Cuba, a pretexto de organizar eventos, entre os quais um seminário sobre o vírus da sida, com a missão de identificar pessoas que pudessem vir a ser «agentes de mudança social».

«Washington tem que reconhecer que a única coisa a que pode aspirar é conseguir influenciar de forma positiva a evolução de Cuba para uma sociedade mais aberta. Para isso, é mais produtivo alcançar uma aproximação diplomática do que insistir em artimanhas», conclui o editorial.

 



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