O trabalho forçoso
Uma das vantagens da televisão é a de nos presentear com surpresas sem que sejamos obrigados a fazer especiais esforços para isso: em princípio, basta carregar num botãozinho e já está! Dir-se-á talvez que qualquer coisa de semelhante se passa com os jornais, pelo menos com alguns deles, com substituição do botãozinho quase mágico pelas manchetes das primeiras páginas. Pois sim, mas com o televisor é uma outra coisa: tem gente dentro com cara, voz e recado na ponta da língua. Ou no teleponto, o que vem a dar no mesmo. E aquilo que a televisão nos conta, digamos assim, tem sempre ou quase sempre o aparente sabor de verdade que nos é revelada, o que nem sempre acontece com os títulos da imprensa. Para mais, o papel de jornal é mudo ao passo que o apresentador de telenoticiários tem som trabalhado em função do que se pretende sugerir (quanto a este ponto, ouça-se o José Rodrigues dos Santos e o estilo de pregoeiro que muitas vezes adopta) e muitas vezes inclui uma observação breve que dá todo um sentido específico à informação transmitida. Por exemplo, na passada segunda-feira a TV divulgou os resultados das eleições na véspera havidas na Ucrânia, e, ao informar que entre todos os eleitos para o parlamento ucraniano não houvera um único comunista, o apresentador da notícia acrescentou que esse facto era uma surpresa. É claro que não o era: a ausência de um único deputado comunista é uma óbvia consequência do anticomunismo persecutório e nada democrático que está implantado em Kiev, mas a suposta estranheza resultava na inocentação desse clima, na sua supressão do noticiário. Isto é, num minúsculo mas efectivo episódio no quadro da manipulação permanente a que estamos submetidos.
Infâmia no horizonte
Há, porém, muitos outros casos de manipulação, tantos e tais que quase poderíamos escolher entre os seus variados calibres ou entre os maiores ou menores efeitos que visam produzir, entre os mais evidentes e os mais discretos, entre os que apontam para a redução dos efeitos de uma notícia escandalosa e a ampliação de impacto de uma aleivosia inicialmente secundária. Por exemplo: foi anunciado que o Governo vai tomar a decisão tendencialmente infame (e o advérbio está aqui para eventual protecção do cronista) de cortar no todo ou em parte as chamadas «prestações sociais não contributivas» que visam substituir rendimentos de trabalho ausentes. E que prestações serão essas? Serão o RSI (Rendimento Social de Inserção, atribuído em princípio para «salvar» o cidadão da total exclusão social), o apoio estatal ao pagamento de renda de casa (para evitar o acréscimo do número de despejos e de cidadãos sem abrigo), pequenos apoios na área da educação (para evitar o crescimento do abandono escolar por falta de meios elementares). E porquê, em que circunstâncias, serão aplicadas essas supressões? O Governo explica: quando a totalidade desses apoios atinja um valor que exceda o que o cidadão «beneficiário» receberia se estivesse a trabalhar. Mais diz o Governo: trata-se de não estimular que o cidadão prefira viver desses rendimentos em vez de procurar trabalho (princípio bonito e contudo não aplicado aos gestores precocemente reformados com as chamadas «reformas doiradas» cuja ociosidade não incomoda o Governo). Dizemos nós, os que conhecemos as concretas condições actuais do mercado de trabalho: a anunciada medida encontrará condições bastantes para que seja profusamente aplicada, pois as actuais remunerações do trabalho, sobretudo da mão-de-obra não especializada, são de tal modo baixas que será fácil que a remuneração seja inferior à soma dos apoios estatais desse modo em risco. Mais: a disposição será de facto uma fortíssima pressão para uma ainda maior baixa desses salários e para que o trabalhador sem outros meios se veja forçado a aceitar remuneração verdadeiramente aviltantes da sua condição de trabalhador e de cidadão. Não será ainda uma forma de trabalho forçado, mas sê-lo-á decerto de trabalho forçoso. Tendo, por baixo, a assinatura deste escandaloso Governo Passos Coelho.