O «vazio»

Ângelo Alves

O passado fim-de-semana foi profícuo em discursos e «novidades». Em Lisboa, Cavaco discursou no 5 de Outubro. Ignorou por completo os problemas dos portugueses, perorou sobre o regime político tentando iludir e esconder as responsabilidades dos partidos da política de direita e as suas próprias responsabilidades na situação do País e do povo. No fim lá fez o que tinha a fazer: tentar condenar o povo a mais do mesmo insistindo na ideia de uma convergência de PS, PSD e CDS para manter a mesma política. Entretanto Passos Coelho foi ao Algarve falar com aqueles que o gostam de ouvir: gestores, banqueiros e grandes capitalistas. Estava por lá José Maria Ricciardi, ex-gestor do BES que também discursou como um impoluto e exemplar gestor! Mas não só, cumprimentou alegremente Passos Coelho e comeu à sua mesa. 0s bons amigos vêem-se é nos momentos «difíceis», lá diz o povo.

Em Sintra, Rui Tavares – ex-deputado do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu – discursou no I Congresso do seu partido. António Costa foi lá e discursou. Assim como Ana Drago que, entre vários outros «ex», já lá esteve também na qualidade de «ex» do Bloco. Já em Coimbra, foi a vez do ex-eleito pelo Partido da Terra no Parlamento Europeu (que entretanto deixou o partido mas não deixou o lugar no Parlamento) lançar o seu novo partido que quer afirmar como um novo 25 de Abril «mas sem Chaimites».

E de tantos discursos que ideias surgiram? Vejamos: Costa agradece a Rui Tavares o diálogo à esquerda no mesmo dia que Francisco Assis volta a falar do Bloco Central. Rui Tavares por seu turno tem algumas certezas: quer ir pró governo, quer usar o Livre como uma espécie de laço para unir vários grupos e quanto a propostas concretas avança uma: resolver a crise ecológica do País (!). Marinho Pinto, além de avesso a chaimites, não tem programa. Resume-o a três palavras para já: Liberdade, Justiça e Solidariedade.

Dirão alguns: é um imenso vazio de ideias para resolver os problemas concretos e reais do povo. Mas atenção! Esse aparente vazio, esse «jiga-joga» da política travestido de discursos de pretensa unidade e de teses e mais teses sobre o sistema político, encerra em si mesmo elementos para continuar a política de direita.




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