Um indistinto regresso

Correia da Fonseca

Esta emissão do «Prós e Contras» havia sido anunciada com o título de «Escolhas». Dir-se-ia tratar-se de um título inspirado por uma certa actualidade, a da recente escolha do dirigente do Partido Socialista para os próximos tempos. Porém, o anúncio da emissão foi acompanhado pela notícia de que para nela participar não havia sido convidado nenhum militante do PCP, o que sugeria que as propostas do Partido Comunista Português não mereciam por parte da RTP o tácito estatuto de escolhas possíveis. Não era bonito nem sequer era legal, mas não era motivo para grandes surpresas. No tempo para alguns saudoso do fascismo português, houve um censor que justificou o corte de uma alusão ao Partido Comunista (então decerto grafado com iniciais minúsculas) exarando em despacho que «este partido não existe», e esta sentença parece perdurar ainda em certos lugares da democrática operadora pública de TV. Não em todos, porém, pois algumas horas antes da emissão arrancar o título daquela emissão do «Prós e Contras» foi alterado para «O regresso da política», com a óbvia alteração do tema a abordar, e o PCP foi convidado a nela estar representado. Assim, no palco do anfiteatro do Centro Champalimaud esteve João Oliveira, o presidente da bancada comunista na Assembleia da República. Não teve ele muitas oportunidades para intervir, muito menos para fazer intervenções extensas, mas ainda pôde ouvir (e corrigir) Jorge Lacão quando este se aplicou a distorcer palavras suas. Tratava-se de confundir o dever de fidelidade de qualquer deputado para com o projecto político por ele defendido em campanha eleitoral com a obediência cega a directrizes políticas, o que colidiria com a sua independência. Aparentemente, o conceito que Lacão tem da independência do deputado admite o seu direito a desmentir e de facto atraiçoar o que defendeu em campanha, e João Oliveira ainda pôde, embora em escasso tempo, desmontar o estratagema. Ou o equívoco, se quisermos usar uma palavra mais branda.

Uma eficaz argamassa

Tratar-se-ia, pois, de «O regresso da política». Porém, será verdade que assistimos a um regresso da política? Se sim, como aconteceu, por onde terá ela andado? Ou de outro modo: de qual política? Ao longo da noite, ouvimos uns e outros, os que estavam no palco e os que falavam da plateia, não parecendo que do que disseram tenha emergido a clara indicação de qual regresso ou de qual política se poderia tratar. O que muito se ouviu, sim, foram acusações e condenações formuladas contra «a política» e «os políticos», mas se esses abundantes requisitórios consubstanciam algum regresso será aos tais velhos tempos do salazarismo, durante os quais a propaganda do regime injectou na massa crédula o horror a «os políticos», convicção que servia para injectar a rejeição da democracia em geral e, em particular, da prática democrática como caminho para a acção cívica. Complementarmente, durante toda a emissão perpassou a sinonímia entre «vida política» e poderes financeiros e/ou económicos, como se a sujeição da acção política aos grandes interesses fosse uma inevitabilidade para todos os partidos. Era, já se vê, uma confusão só possível perante a omissão de que essa dependência só pode acontecer em sociedades cuja estrutura sócio-económica consagra o poder do grande capital e onde, pela sua própria natureza, escapam os partidos dos trabalhadores como o PCP. De resto, esta virulenta aversão a «os partidos» e «os políticos» tem surgido historicamente como uma eficaz argamassa para a construção de regimes de extrema-direita, fascistas ou nazis, com os poderes visíveis a serem de facto financiados e directamente comandados pelo grande capital financeiro. Neste sentido, o «regresso» de que falava o título da emissão poderia ser entendido como «o regresso de Salazar» e uma póstuma vitória do ditador a quem a moderada Sophia chamou «o velho abutre». Não terá sido essa a intenção do programa. Mas bem sabemos que lugar, ao que se diz, está cheio de boas intenções.



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