O PCP e o povo derrotam golpe fascista

A intentona do 28 de Setembro

No ano em que se comemora o 40.º aniversário do 25 de Abril, cabe recordar uma outra data que marcou de forma indelével o ano de 1974 – o 28 de Setembro, dia da intentona fascista da «maioria silenciosa», que só a decidida resistência do PCP, do movimento operário, das massas populares e dos militares progressistas conseguiu derrotar.

Ninguém escalpelizou esses acontecimentos como Álvaro Cunhal, no seu livro «A verdade e a mentira na revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se)». É dessa obra, fundamental para se perceber a história recente do País, que se reproduz alguns excertos reveladores do que foi a intentona do 28 de Setembro.

«[...] Os fascistas conspiram e procuram preparar um golpe que conduza o País a uma nova ditadura. A propaganda anticomunista atingiu uma violência jamais vista.» (Discurso do Secretário-geral em Peniche em 31-8-1974, Avante!, 6-9-1974) [...].

Quando [...] se tornou clara a preparação de um novo golpe,[...] o PCP passou a insistir, [...] na necessidade de urgentes e enérgicas medidas e a preparar todo o Partido e as massas populares para intervir. [...] Refere a propaganda e a mobilização reaccionária em todo o país para a manifestação da «maioria silenciosa», as provocações e agressões a democratas por brigadas pidescas e apela à prontidão para lhes dar resposta[...]: «Existem forças bastantes para evitar ou dominar a tentativa de um golpe fascista».

[...] O eixo do novo golpe seria uma gigantesca mobilização nacional da «maioria silenciosa» para se concentrar numa manifestação em Lisboa, frente ao Palácio de Belém, apelando ao Presidente que salvasse Portugal do caos, do comunismo, do governo de Vasco Gonçalves.

[...] Ao dar posse ao 2.º Governo Provisório em 18 de Julho, Spínola [...] incitou a que essa «maioria silenciosa» «acorde» e tome a defesa da sua liberdade pois, se o não fizer, «o 25 de Abril será perdido!».

[...] A 30 de Agosto, é distribuído no Porto um significativo panfleto anónimo, que «apoia inteiramente o General António de Spínola» e apresenta como objectivos «exigir a dissolução imediata da Comissão Coordenadora do MFA», «correr com os comunistas do Governo».

[...] Em 19 de Setembro, aparece em todo o país o cartaz anunciando que [...] «vai-se organizar, dentro de dias [na «Praça do Império»], uma Manifestação Nacional de Apoio,[...] e informa que «para o efeito serão postos à disposição, gratuitamente, todos os meios de transporte colectivos». Passados dias, é marcado o 28 de Setembro para a concentração[...] da «maioria silenciosa».

[...] O plano foi cuidadosamente definido e calendarizado, fazendo convergir [...] todas as frentes [...], sem esquecer acções de provocação desestabilizadoras, como o motim dos Pides na Penitenciária de Lisboa e a libertação de dirigentes fascistas.

Na frente militar, [...] procuram reforçar-se posições e apoios. Certos os generais da JSN, Silvino Silvério Marques, Galvão de Melo e Diogo Neto. Certa a Guarda presidencial. Certas posições militares do núcleo spinolista. Tida por certa a GNR. Apoios dispersos na hierarquia e comandos de regiões e unidades.

Na frente política, com apoios públicos ou reservados do PPD e do CDS (coligado com o PDC [...] como confirma Freitas do Amaral, [...] forma-se um partido clandestino, de ex-pides e ex-legionários – o Partido Nacionalista Português. [...] Na frente colonial, no dia 7 de Setembro, os fascistas ocupam o Rádio Clube de Moçambique e são libertados os pides da cadeia de Machava, causando os incidentes verificados 100 mortos e 250 feridos, segundo dados oficiais. [...] Na frente económica, é muito activa a intervenção dos grupos monopolistas associados no MDE/S (Movimento Dinamizador Empresa/Sociedade, [...] tendo como fundadores António Champalimaud, Mário Vinhas, José Manuel de Mello e Miguel Quinas). [...] As revelações feitas por José de Mello, vinte anos mais tarde, são esclarecedoras: [...] «Havia muita gente envolvida... O próprio António Champalimaud, Manuel Ricardo Espírito Santo, alguns outros empresários»[...]. [...] Anuncia-se em todo o país transporte gratuito para Lisboa, a mobilização de milhares de autocarros e automóveis, o fretamento de comboios especiais e de aviões.

[...] Spínola considerava [...] a «manifestação da maioria silenciosa» como imparável e a batalha como ganha. [...] Não contou porém com a posição contrária à manifestação, assumida por comandos militares em algumas regiões. Nem com as declarações públicas e manifestações unitárias. Nem com a espontânea participação de soldados nas acções populares. [...] E não contou sobretudo com dois factores que se revelaram decisivos: Um, a força das massas populares demonstrada na resistência ao avanço da ofensiva contra-revolucionária, na vigilância, na preparação organizativa e psicológica para a resposta no próprio dia 28. Outro, a capacidade do PCP e do movimento operário para, após o inesperado ultimato, nas poucas horas de uma noite, mobilizarem as massas para uma intervenção, que teria de ser poderosa para derrotar a gigantesca operação contra-revolucionária em curso.

[...] Na noite de 27 para 28, tendo mandado e conseguido silenciar as emissoras, Spínola procurou a intervenção em apoio do golpe de numerosas unidades das forças armadas. [...] A resposta geral foi que só recebiam ordens directas do CEMGFA, General Costa Gomes. [...] Freitas do Amaral [...] diz que, no próprio dia 28, «Spínola ainda pensou na declaração do "estado de sítio" no distrito de Lisboa, para que as Forças Armadas e de segurança dissolvessem as barricadas e garantissem a possibilidade de a manifestação se realizar; e chamou-me a Belém, solicitando-me que redigisse o respectivo projecto de decreto, o que fiz». [...] Segundo Freitas do Amaral, o projecto só não foi por diante porque, no dia 29, na reunião do Conselho de Estado que convocou, Spínola propôs «um regime transitório de excepção», com suspensão de direitos e garantias, e[...] a ilegalização do PCP, se este, como era de esperar, não cumprisse as ordens. [...] Segundo Freitas do Amaral, «parece que Spínola terá chegado a admitir, ou mesmo a solicitar, a intervenção das forças militares da NATO, o que na altura ninguém soube»[...].

[...] Derrotada a tentativa de golpe, o PCP, longe de cair na vertigem do sucesso, advertiu que «seria ilusório pensar que os conspiradores fascistas se vão dar por vencidos» [...], e exigiu medidas para evitar novas tentativas de novos golpes.

[..] É o próprio Mário Soares quem, 20 anos mais tarde, lembra que «tomou conhecimento do 28 de Setembro em Estrasburgo», quando usava da palavra na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa «vindo na noite anterior de Nova lorque»[...].

[...] Ele e a delegação do PS encontraram-se com Kissinger a quem informaram (precisamente nas vésperas do golpe anunciado) «da possibilidade de um cenário comunista para Portugal», Soares não desmentiu. [...] Não é difícil concluir que assim foi, até pelas declarações e revelações que Soares fez 20 anos mais tarde. [...] «Se o general Spínola, por quem eu tenho muito carinho, se tem aproximado mais de nós, socialistas, e nos tem ouvido - coisa que nunca fez [?] enquanto foi Presidente da República - é óbvio que nunca o deixaríamos demitir-se. [...] Deu de mão beijada um argumento enorme àqueles que queriam acelerar o processo revolucionário. Tiveram o pretexto [?] ideal!» [...] Houve, é certo, dirigentes regionais do PS que participaram na luta contra a tentativa de golpe. Houve algumas declarações soltas aqui e além. Mas ninguém viu o PS no duro combate contra Spínola, que já vinha de trás. Ninguém viu o PS nas barragens. Ninguém os viu nas entradas de Lisboa. Só já depois de derrotada a «maioria silenciosa», o PS aparece a condenar a manifestação [...].

 



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