De que falamos quando falamos de cultura

Manuel Gusmão

Quando falamos de cultura de que falamos exactamente? Podemos estar a falar de coisas muito diversas. Podemos estar a falar de largo tipo de artefactos produzidos por actividades artesanais. Mas podemos estar a falar não de produtos mas das instalações ou das instituições em que são produzidos ou em que se organiza o seu uso, a sua recepção, ou o seu consumo.

Ou podemos estar a comparar imagens e representações plásticas produzidas pela mão, nua ou «armada» por pincéis, por máquinas fotográficas ou de filmar.

Nesta diversidade de operações, atitudes e gestos mais ou menos rituais, convencionalizados, ou sujeitos a regras mais ou menos constrigentes, nós podemos encontrar traços daquilo a que chamamos cultura, que se constitui como uma relação activa dos membros de uma comunidade, uns com os outros, com a vida e o universo, relação essa que é o desenvolvimento prático das capacidades que configuram o humano: – a capacidade de saber e de aprender (homo sapiens); – a capacidade de fazer (homo faber); e a capacidade de jogar (homo ludens).

E assim podemos dizer que a cultura é o sistema (ou o conjunto) aberto das actividades; meios e instrumentos; discursos e linguagens; artefactos e outros «objectos produzidos», através dos quais os grupos e os indivíduos humanos procuram dar sentido à sua vida colectiva e ao seu rosto individual, ao mundo em que habitam e ao universo que é a sua residência cósmica.

Desta forma, observaremos que esta definição de cultura se aproxima da definição que Marx nos dá de processo de trabalho útil em geral, no cap. V, do livro I, do Capital. Por exemplo: «os momentos simples do processo de trabalho são a actividade conforme ao objectivo, ou o próprio trabalho, o seu objecto e o seu meio.» (206)

Esta proximidade torna mais rica, do que qualquer outra noção de cultura, aquela que Marx nos permite construir.

No processo de trabalho, a actividade do homem através do «meio (ou instrumento de trabalho) opera, pois, uma modificação do objecto de trabalho que de antemão visa um fim. O processo extingue-se no produto. O seu produto é um valor de uso, uma matéria da Natureza apropriada às necessidades humanas por modificação de forma. (209)

Se no caso dos artefactos culturais a prévia visibilidade do ojectivo é menos imediatamente legível, a ideia de que o trabalho consiste numa modificação do objecto (ou matéria-prima) sobre o qual se exerce a actividade é não só uma indicação preciosa sobre o carácter tendencialmente transformador do trabalho humano, mas também sobre esse mesmo carácter como função tendencial da cultura.

A poderosa unidade da cultura

A poderosa unidade da cultura torna-se compreensível pela série de critérios que ela própria nos fornece sobre a sua organização interna. Podemos organizar a complexidade do mundo da cultura, a) do ponto de vista das suas articulações institucionais e sociais; e b) do ponto de vista das suas articulações disciplinares.

Assim: podemos ver as formas e os conteúdos culturais marcados pela dominância de certos aparelhos possuidores de valores próprios e de regras próprias na produção, difusão, recepção e avaliação da cultura. Este será o campo da cultura erudita. A cultura popular tem como protagonistas criadores que são em muitos casos alguém que intermedeia o presente de uma cultura e as tradições frequentemente ostracizadas que nela sobrevivem. De origem camponesa, a cultura popular foi profundamente ferida pelas transformações que se deram na estrutura social do que chamamos «povo». Hoje, a cultura popular tem uma base já marcadamente urbana e a ameaça sofrida pelas culturas camponesas sofre-a agora como concorrência do «popular» comercializado na produção para o mercado das grandes «Majors» da cultura mass-mediática.

Do ponto de vista disciplinar podemos ver que as culturas se distribuem por áreas ou campos onde há um centro disciplinar ou metodológico fundamental.

Podemos arrumá-las em dois patamares. Num primeiro nível de grande generalidade e usando grandes diferenciações quanto à esfera humana, teríamos a distinção entre a cultura científica, a cultura artística, a cultura filosófica, a cultura política. Crescentemente reivindica-se a atenção a uma cultura tecnológica e a uma cultura ecológica.

Mais perto da conversa quotidiana e dos negócios do Estado temos um uso de cultura que por vezes parece esgotar o campo cultural, bem ora se esteja a referir apenas um dos campos da cultura artística. Isso acontece sobretudo no quadro das referências à cultura artística e o exemplo mais significativo é a existência, intermitente, é certo, de um Ministério ou de uma secretaria de Estado «da Cultura», que só tem como seus assuntos as culturas artísticas mais consolidadas, na opinião pública, e certas áreas do património artístico.

 

Referências

K.Marx, O CAPITAL. Livro primeiro Tomo I, Edições Avante!. Edições Progresso, Lisboa – Moscovo, 1900




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