De Talma

Henrique Custódio

Buscam permanentemente a postura, o gesto, a performance que transforma o calculado em natural e tudo sob a grandiloquência da «pose de Estado», que é onde a porca torce o rabo porque ninguém consegue, dos que actualmente governam e por muito que se esmerem, transitar do «estado de pose» para a «pose de Estado».

Mota Soares, apesar das semelhanças com Max Schreck, nem aos calcanhares chega do grande criador de Nosferatu, de Murnau e, apesar de a devastação que semeia entre os reformados e pensionistas ser bem mais aterradora do que qualquer Drácula do cinema, o que lhe sobra da pose são os esgares. E os cortes que implacavelmente prossegue, como agora se verificou com a diminuição de (mais) 50 mil subsídios de reinserção e de complemento para idosos em relação ao período homólogo do ano passado. É a catástrofe de mansinho, servida à colher por um indivíduo que imita o Drácula.

Já a Paulo Macedo, ministro da Saúde, o alevantar da barriga não esconde factos objectivos como os coligidos por Alexandra Campos, no Público: «este ano as unidades de Saúde privadas estão a crescer a um ritmo superior ao habitual, “entre 15 a 20%”, revela o presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP), Artur Osório». O mesmo Osório declara, à pergunta de como se explica tal aumento em época de crise, que «o serviço público está a ser afectado pela efervescência e pela ebulição causada pelo litígio entre médicos, enfermeiros» [agora as greves profissionais são «efervescências» entre pares], não perdendo a oportunidade de também «reivindicar»: «é urgente», diz ele, «reformar todo o sistema público». Pois claro. Certamente invertendo a actual cobertura de (ainda) 80% pelo SNS, para os actuais 20% (já) detidos pelos privados... Osório pode confiar no ministro Macedo: por ele, o SNS há-de ir às malvas, e com toda a rotundidade.

O ministro da Economia, o empresário cervejeiro Pires de Lima, igualmente rotundo mas também retumbante quando mede vitórias às décimas, é uma alacridade a ser ministro que diz coisas, o que, provavelmente, explicará que nunca diga nada de relevante, enquanto o seu correligionário e «chefe» Paulo Portas é, na sua essência, a «pose de Estado» em modo humano, pelo que, se farejar câmaras ou microfones, aí está ele, estridente e hirto, empinando o nariz e oferecendo-o ao perfil, em modo de «pose de Estado» a três quartos.

Para o fim temos o Crato da guerra à escola pública, a Luís Albuquerque, crisálida que ascendeu dos swaps a «génio das Finanças» e o Passos Coelho com uma solitária ideia na cabeça, a de empobrecer o País custe o que custar, todos produtos atamancados na pose de Estado e que são os grandes responsáveis pelo Estado a que isto chegou.

Dizem que o cinema é a arte de Talma. Com estes artistas da «pose de Estado», a fita é de Portugal entalmado.

 



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