Hollande fragilizado
O primeiro-ministro francês, Manuel Valls, apresentou, na segunda-feira, 25, a demissão do seu governo. O presidente Hollande encarregou-o de formar outro.
Divergências internas desfazem governo de Valls
Empossado em Abril, após a estrondosa derrota dos socialistas nas eleições municipais, o primeiro-ministro francês viu a sua popularidade esboroar-se à medida que ia revelando as suas políticas.
Hoje, apenas 36 por cento dos franceses dizem apoiá-lo, uma queda de 20 pontos percentuais em pouco mais de três meses. À contestação popular juntaram-se as duras críticas expressas no fim-de-semana por dois dos seus ministros.
Valls apresentou a demissão, mas foi salvo pelo presidente François Hollande, que lhe pediu para formar uma nova equipa «coerente», isto é, extirpada dos críticos.
Ao renovar a confiança em Valls, François Hollande tenta uma fuga em frente, ignorando as críticas de vários sectores e a própria degradação da situação económica e social.
O mais destacado e frontal desses críticos é o ministro da Economia, Arnaud Montebourg, que, no sábado, 23, em entrevista ao jornal Le Monde, defendeu o relançamento do consumo como condição para a saída da crise.
«A redução do défice é uma aberração económica que agrava o desemprego, um absurdo financeiro porque torna impossível a recuperação das contas públicas, uma política sinistra porque lança os europeus nos braços dos partidos extremistas», declarou Montebourg.
O ministro criticou ainda abertamente as decisões da «direita alemã que impôs a toda a Europa a política de austeridade».
No mesmo sentido, o titular da Educação, Benoît Hamon, declarou que a Alemanha serve os seus interesses particulares, não os da Europa». Para além dos dois ministros, diversos dirigentes socialistas se manifestaram nas últimas semanas a favor de mais políticas de crescimento e menos cortes.
Contestação social
Mas a crise política em França não pode ser desligada da contestação social que tende a aumentar. Dois sinais dessa predisposição foram dados em Junho com a greve dos ferroviários, que paralisou metade dos comboios de França, e a greve dos trabalhadores do espectáculo que obrigou ao cancelamento de festivais culturais de renome internacional.
A Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), apelando a uma ampla mobilização dos trabalhadores e pensionistas, insiste na necessidade de alterar o rumo das políticas, notando que a dinamização do consumo só pode ser feita através do aumento do salário mínimo, da revalorização dos salários da função pública, das pensões e das prestações sociais mínimas.
A central sindical salienta que para promover o investimento e a criação de empregos é preciso deitar mão ao conjunto dos recursos, desde a fiscalidade ao sistema financeiro, em particular à banca.
O pomo da discórdia
No final de Abril, Manuel Valls levou à Assembleia Nacional um plano de cortes na despesa sem precedentes na história recente do país. O pacote, que prevê uma redução de 50 mil milhões de euros em três anos, dividiu a bancada socialista, acabando por ser aprovado por 265 votos a favor, 232 contra e 41 abstenções.
Repetindo a cartilha da generalidade dos governos dos países da UE, Valls justificou-se alegando que «não podemos viver mais tempo acima das nossas possibilidades».
Mas ao mesmo tempo que impôs cortes nas administrações regionais e locais, na Saúde e noutras áreas sociais, o seu governo também fez aprovar o chamado «pacto de responsabilidade» que prevê reduções fiscais às empresas, estimadas em 41 mil milhões de euros.
A transferência de verbas da área social para o capital é evidente. E lá como cá, nem os pensionistas são poupados: as pensões superiores a 1200 euros serão congeladas.
Porém embates mais duros surgirão na discussão dos próximos orçamentos do Estado, onde todos os cortes assumirão a sua forma final, beneficiando alguns em detrimento da maioria da população.