Ruptura, alternativa e encenação

Francisco Lopes (Membro da Comissão Política do PCP)

A dimensão dos problemas resultantes de 38 anos de política de direita, da responsabilidade do PS, PSD e CDS-PP, exige a ruptura com essa política e a concretização da alternativa patriótica e de esquerda vinculada aos valores de Abril, que o PCP propõe.

O problema do PS é o da sua natureza e prática política

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Nesta situação, o PS é, mais uma vez, a aposta principal do grande capital, e a encenação das chamadas eleições primárias um episódio da operação para iludir o povo português visando promover a alternância na condução da política de direita, estabelecer novas formas de convergência do PS com o PSD e o CDS-PP e dificultar a ruptura e a alternativa.

É essa alternativa patriótica e de esquerda e a ruptura indispensável e urgente para lhe abrir caminho que o grande capital nacional e transnacional e os seus representantes políticos a todo o custo querem evitar. É isso que, após as eleições para o Parlamento Europeu, com os resultados obtidos pela CDU, a força do PCP e a expressão da luta de massas, está na base da operação em curso em torno do PS.

Face à identificação do PS, PSD e CDS-PP como executantes da política e direita, face à incapacidade do PS, bem como de outras expressões políticas criadas e promovidas, para impedir a consolidação e o reforço eleitoral da CDU, face ao alargamento do apoio ao projecto da alternativa patriótica e de esquerda, sectores do PS entenderam que seria necessária uma operação de cosmética na direcção do seu partido. Na confrontação interna que suscitou foi entretanto lançada a manobra das chamadas eleições primárias para primeiro-ministro, que constitui mais uma encenação no longo arsenal de dissimulação a que os partidos da política de direita têm recorrido.

Apelidada de nova forma de funcionamento dos partidos ou de abertura aos cidadãos, não falta propaganda a tal encenação. De facto, trata-se de uma iniciativa que, na sua dimensão interna de funcionamento de um partido, é tudo menos democrática e que na sua expressão política nacional é profundamente mistificadora e descaracterizadora do regime democrático.

Dizer uma coisa, fazer outra

No plano interno, a coberto de uma grande operação mediática, amplia práticas do PS pouco abonatórias, desde logo a arregimentação de todo o tipo de pessoas, simpatizantes ou não, para apoiar este ou aquele protagonista, multiplicando em larga escala as práticas daqueles que pagavam as quotas dos militantes para estes apoiarem a sua candidatura. A democracia interna de um partido baseia-se na participação dos seus membros, com os seus direitos e deveres, e não na sua diluição e desagregação à medida desta ou daquela moda, desta ou daquela encenação.

No plano político nacional, o processo em curso no PS, cobrindo-se de uma ideia de transparência e de participação, constitui uma manobra marcada pelo oposto. Colocando a falsa questão da escolha de um candidato a primeiro-ministro entre António José Seguro e António Costa, leva ao limite a fulanização, reduzindo tudo a duas pessoas, em aparente confronto, procurando passar por cima da questão determinante do que é o PS e a sua orientação que, seja com um seja com o outro, significa o prosseguimento da política de direita e a sua convergência de 38 anos com o PSD e o CDS-PP, sempre em benefício do grande capital.

Ao mesmo tempo, esta encenação leva mais longe do que em qualquer outro momento a mistificação sobre a natureza das eleições para a Assembleia da República, tentando fazer desse processo eleitoral – que implica a opção face a práticas e projectos políticos que se traduzem na eleição de deputados que os representam na Assembleia da República e a partir da qual sai o governo – eleições fulanizadas para primeiro-ministro, que não existem, com o objectivo de escamotear as opções políticas essenciais quanto ao rumo do País e de promover a bipolarização.

O problema do PS ao longo da sua existência é o da sua natureza e prática política ao serviço dos grupos económicos e financeiros e da submissão de Portugal, é o dizer uma coisa nas campanhas eleitorais e fazer outra quando está no governo. Mais uma vez esse é o problema, seja António José Seguro ou António Costa o seu principal dirigente.

Não há encenação que possa alterar a situação e a opção que dela decorre. Perante o prosseguimento da política de direita, o agravamento da exploração, o empobrecimento, escândalos como o do BES/GES, impõe-se a ruptura e a alternativa, impõe-se o apoio à política patriótica e de esquerda, o reforço do PCP e da sua influência, a convergência dos democratas e patriotas e o desenvolvimento da luta dos trabalhadores e do povo. Esse é o caminho da vitória.

 



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