Donos e danos
Nas últimas três semanas, o BES passou de um banco «sólido e com almofadas financeiras» passepartout, a «lixo bancário» que perdeu três quartos da cotação em bolsa (até ver).
Em decorrência, todos os investidores do BES (incluindo os cinco ramos da Famiglia) terão visto as suas apostas irem pelo cano abaixo (até ver), ficando para isso detentores do «BES mau», enquanto o «BES bom» - o dos depósitos e dos depositantes – ficará sob a benigna gestão que o PSD lhe arranjou, liderada por Vítor Bento, um ex-conselheiro presidencial escolhido pelo próprio Cavaco.
Isto segundo a divisão do BES anunciada pelo BdP no passado domingo.
Tudo isto sempre «até ver», pois, se há coisa aprendida nestas extraordinárias três semanas, é que o apresentado como «definitivo» constitui-se de imediato em meio-caminho para o provisório.
Há três semanas, o governador do BdP garantia a separação entre BES e GES, invocando um «cordão sanitário» à volta da instituição bancária que a isolaria dos «maus negócios» do Grupo.
Desde aí, mudaria de posição ao ritmo a que trocava de gravata: a estanquidade do BES passou a «alguma exposição» ao GES, essa «exposição» começou por estar «almofadada» por uma «provisão» de 2,1 milhões de euros, mas as «necessidades de financiamento» evoluiram freneticamente para uns 3,7 milhões em relatório de contas para, logo de seguida, se situarem nos «quatro ou cinco mil milhões» de euros, até ver... e para tal não havia almofada que aguentasse.
Há três semanas, o primeiro-ministro garantia que «os contribuintes portugueses não vão ser chamados a suportar perdas privadas» no BES, depois mudou para «faremos o que for preciso» para «garantir a estabilidade» e agora pirou-se para o Algarve, deixando a batata quente de anunciar o financiamento público ao buraco de «quatro ou cinco mil milhões de euros» do BES para o governador do BdP.
Há três semanas, Ricardo Salgado passou de «DDT» (Dono Disto Tudo) a arguido de processos criminais que só agora começaram e, neste entrementes, «O Banqueiro» caiu do espaço galáctico da alta finança para a mixórdia das arguições de criminalidade económica, bolsista, especulativa, de branqueamento de capitais e do que de mais se verá – e uma coisa que já se averiguou foi Salgado ter feito estragos avultados, quando já estava suspenso e proibido de actuar na banca.
O conspícuo banqueiro desceu a «marginal» e epítetos que tais, nenhum deles, quiçá, cobrando o suficiente à Pronúncia que se lhe abriu.
A hecatombe do BES-GES – cuja procissão ainda está no adro – também causou estragos colaterais, como a de os cinco ramos da «família Espírito Santo» terem saído, abruptamente, do «grupo dos mais ricos».
Mas não tenham pena deles: todos os «ramos» terão, bem acautelados em países e paraísos fiscais, os gigantescos «pecúlios» que sempre protegeram.