Que fazer desta dor?

Anabela Fino

Em certas alturas escrever é um exercício penoso, não pela falta de temas ou sequer de inspiração, mas pelo facto de parecer que o que importa realmente dizer estará sempre, por mais voltas que se dê ao texto, necessariamente carregado de mágoa, de raiva, de revolta. É um sentimento que nem a certeza de que os tiranos serão vencidos – por mais que façam planos para dez mil anos – consegue apagar. Porque a injustiça que invade a vida, mesmo que seja alheia, dói. Porque a dor que grassa pelo mundo, mesmo que em terras e gentes distantes, dói. Porque a morte infligida a seres humanos é um bocado de vida que nos roubam e isso dói. Não há conforto de sofá que nos proteja da dor sem medida das mães que perderam os filhos assassinados na praia quando jogavam futebol; não há palavras que nos resguardem do desespero das crianças que tudo perderam, até a própria infância; não há luz que nos ilumine face aos olhos parados de homens a quem tiraram o chão debaixo dos pés; não há nada, absolutamente nada, que nos prepare para o nascimento de um filho de uma mulher morta num bombardeamento.
E tudo isto está a acontecer em Gaza.
Dizem-nos as notícias que os «confrontos» começaram a 8 de Julho – pouco mais de vinte dias, portanto – assim administrando o narcótico mediático com que se pretende apagar da memória 66 (sessenta-e-seis!) anos de ocupação, repressão, discriminação e extermínio levados a cabo por Israel contra o povo palestiniano. Dizem-nos que Israel tem o «direito de se defender», apagando décadas de história em que um Estado se formou usurpando a terra, as casas, a água, o direito à vida de um povo. Dizem-nos que não haverá «paz» sem o desarmamento do oprimido, omitindo que o opressor é o único país do mundo que desrespeita todas as resoluções das Nações Unidas, incluindo a que há décadas estabeleceu as fronteiras entre Israel e a Palestina. Enquanto os palestinianos vão tombando, pelos vistos ainda não em número suficiente para que na Casa Branca se admita o termo genocídio, a dor não tem limites.
Que fazer com tanta dor? Brecht deu-nos a receita: O que é esmagado que se levante! / O que está perdido, lute! / O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha? / E nunca será: ainda hoje / Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.




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