O azar do piqueno

Manuel Gouveia

É co­nhe­cida a es­tória do co­mer­ci­ante que, tendo um burro que queria va­lo­rizar para vender, de­cidiu treinar o animal a não comer. E de como, três se­manas sem comer de­pois, o «sa­cana do burro» morreu, «que azar, justo agora que já es­tava quase trei­nado».
O que está a acon­tecer à fi­a­bi­li­dade da ope­ração das em­presas pú­blicas de trans­porte faz lem­brar um pouco esta es­tória. É que o Go­verno de­cretou o corte cego nas des­pesas de ma­nu­tenção, de­cretou a re­dução cega de tra­ba­lha­dores, de­cretou a re­dução sis­te­má­tica de sa­lá­rios. Tudo para per­mitir que estas em­presas pu­dessem ser trans­for­madas em opor­tu­ni­dades de ne­gó­cios para o ca­pital. Dos STCP onde as car­reiras caem di­a­ri­a­mente, ao Metro de Lisboa com fa­lhas sis­te­má­ticas, pas­sando por uma fer­rovia em ace­le­rada de­gra­dação e che­gando à ope­ração da TAP com­ple­ta­mente de­ses­ta­bi­li­zada, nestes três anos, foi brutal a de­gra­dação da fi­a­bi­li­dade da ope­ração.
Onde a re­a­li­dade se di­fe­rencia da es­tória, é que o ac­tual Go­verno está a aplicar o tra­ta­mento a um burro que não é seu, es­pe­rando poder con­vencer o dono do burro (neste caso o povo por­tu­guês) a vender o animal a um amigo do Go­verno antes que o treino acabe com o bicho.
É esse o papel do mi­nistro da Eco­nomia neste Por­tugal. É por isso que quando na As­sem­bleia da Re­pú­blica, a 2 de Julho (ainda as di­men­sões da de­ses­ta­bi­li­zação da TAP não eram per­cep­tí­veis à es­cala que agora o são) o PCP de­nun­ciou que a ope­ração da TAP es­tava a ter um cres­ci­mento não sus­ten­tado, e que se es­tava a criar um pro­blema para de­pois se apre­sentar a pri­va­ti­zação como so­lução, o mi­nistro, sur­pre­en­dido, des­mentiu ca­te­go­ri­ca­mente que hou­vesse qual­quer cres­ci­mento não sus­ten­tado e acusou o PCP de querer uma TAP «pi­qui­nina» em con­tra­ponto ao Go­verno, que de­se­jaria uma TAP em grande cres­ci­mento.
Três se­manas de­pois, como quem segue um guião, apa­rece o mesmo pi­queno a falar da «crise de cres­ci­mento que se ve­ri­ficou na TAP e que per­turba o ser­viço e a vida das pes­soas» e a pro­meter para Se­tembro/​Ou­tubro a «res­posta» ao pro­blema, ao mesmo tempo que um ca­pi­ta­lista usava a co­mu­ni­cação so­cial para anun­ciar a in­tenção de se apro­priar da TAP.
Que vi­ga­ristas sem ver­gonha!




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