Sistémico...

Ângelo Alves

O País assiste ao desenrolar do «folhetim» Espírito Santo. O discurso dominante já fala de «risco sistémico», a palavra mágica que para o comum dos portugueses quer dizer que alguém nos vai tentar roubar a soma necessária para salvar o BES, o GES e a família Espírito Santo.

Essa «família» e «grupo», que criaram um buraco de sete mil milhões de euros, são aqueles que enriqueceram à custa de todos nós, especulando lá fora com os milhões que todos os meses lhe caem no regaço vindos de recursos do Estado e de juros cobrados a cada um de nós «detentores» de um empréstimo com um ou dois quartos, e de um outro com três ou cinco portas, rodas e 1100 cm³ de cilindrada.

Para esses, e para os que com eles fazem «negócio» usando o nosso dinheiro, estamos habituados a olhar como os nossos «credores». E se a vida nos correr mal, azar... entregamos os dois quartos, as três portas com rodas, ficamos com registo «negro» e ainda temos de continuar a pagar, à força. Afinal eles são os nossos «credores».

Mas se há realidade que casos como o do BES vêm demonstrar é que, em capitalismo, a situação é exactamente a inversa. Aqueles que vivem do seu trabalho são os que produzem a riqueza com que os espíritos santos deste mundo «negoceiam». Nós somos os seus credores! Uns credores, cujo gestor, o Estado, é controlado directa ou indirectamente por aqueles que se apoderam da tal riqueza por nós produzida, invertendo-se assim os papeis e ficando nós a depender formalmente deles.

São esses mesmos que se lançam em manobras várias para «proteger a família Espírito Santo dos credores» e se preparam para sugar ainda mais do que já sugaram. O risco sistémico de que nos falam é o dos seus lucros e do seu sistema de domínio. É isto que os preocupa. O resto são «fenómenos próprios de tempos difíceis», como afirmou Paulo Macedo ao comentar as notícias de grávidas que chegam sem comer aos hospitais.

Fenómenos próprios, sim, mas de um sistema desumano, que joga com a vida de milhões de pessoas para encher os bolsos «sistémicos» de alguns. Mas lá virá o dia em que os credores vão acordar e resgatar e gerir aquilo que é seu de direito. E nessa altura sistémico será sinónimo de progresso e justiça social. Quanto a eles, azar... têm de trabalhar.



Mais artigos de: Opinião

Quando as pontes caem

No início deste mês, na linha da Beira Alta, um comboio de mercadorias com destino a Madrid descarrilou tendo sido o mais recente acidente ferroviário de uma série que, só nos últimos dois meses, contou com outros dois descarrilamentos na ferrovia portuguesa a 15 e a 28 de Maio;...

Caldo entornado

Consta que o velho Ford um dia irritado com as reivindicações dos seus trabalhadores ameaçou que os despediria e os substituiria por máquinas. Um sindicalista não resistiu e respondeu: – o senhor vai então ter outro problema para resolver que é descobrir como...

Hidras

Hidra e Cérbero eram monstros da mitologia grega, irmãos com igual morfologia básica, a de possuírem várias cabeças, e ambos destinados a ameaçar mortalmente os homens. A Hidra portuguesa tem três cabeças, uma delas insignificante em espécie, mas de...

O «conflito» na Palestina

No momento da redacção deste artigo circula na comunicação social a possibilidade de um «cessar-fogo» no «conflito israelo-palestiniano». Mas o que significa de facto este «cessar-fogo»? Significa que duas partes em conflito, com partes iguais de...

Lutar todos os dias

O Partido tem vindo a denunciar que a política de direita e de abdicação nacional, ao serviço dos grandes grupos económicos, conduziu o País à mais grave situação económica e social do Portugal democrático. O Governo recorre à mentira e adulteração de dados económicos para passar a ideia de que existe uma recuperação económica, de que «valeram a pena os sacrifícios» e de que «quem põe em causa a ideia da recuperação económica está a desvalorizar o esforço dos portugueses».