Hidras

Henrique Custódio

Hidra e Cérbero eram monstros da mitologia grega, irmãos com igual morfologia básica, a de possuírem várias cabeças, e ambos destinados a ameaçar mortalmente os homens.

A Hidra portuguesa tem três cabeças, uma delas insignificante em espécie, mas de vez em quando necessária para apurar a dentuça das duas maiores.

A Hidra consolidou-se no bipartidarismo PS e PSD – ora agora governas tu, ora agora governo eu – e apoiando-se cada um deles no CDS quando a perna eleitoral fica curta.

Cavaco Silva foi o primeiro a usufruir de duas maiorias absolutas, onde resplandeceu o «cavaquismo» e as suas, agora, evidentes atrocidades, desde a destruição amplamente subsidiada pela UE da Pesca e da indústria pesqueira, da Indústria pesada e da Agricultura (os agricultores recebiam «subsídios» para não produzir e os pescadores pipas de massa pelos barcos que destruíssem), enquanto Cavaco perorava que o destino de Portugal estava no turismo e nos serviços, ao mesmo tempo que lançava estradas sobretudo «para a Europa», que as pagava abundantemente, e percebe-se porquê: para entrarem à vontade todos os produtos vindos da Europa e que a Europa, «generosamente», nos pagara para os desmantelar ou não os produzir no nosso País. Foi este o tempo do «oiro de Bruxelas», que Cavaco também esbanjou em cursos, cursilhos e subsídios que encheram os bolsos a gente «com iniciativa». De caminho, privatizou o que pôde (incluindo o BES) e mordeu onde conseguiu na legislação laboral e na generalidade dos serviços sociais do Estado, até fugir do poder, acossado.

Sucedeu-lhe Guterres e a sua «política com o coração» onde, sempre muito dialogante, continuou as privatizações e os ataques generalizados aos serviços sociais do Estado, até também fugir, como em geral os chanceleres portugueses fazem, quando as respectivas políticas os tornam execráveis aos olhos do País.

Após os efémeros Barroso e Santana Lopes, seguiu-se o início da grande catástrofe: o poder absoluto (re)assumido por Sócrates, que iniciou o ataque arrogante e generalizado à Função Pública, à Educação e à gestão democrática das escolas, à Saúde e à Segurança Social, tudo assumido como «política de Estado» e deixando a destruição a jeito para o próximo.

Destruição retomada pelo actual Governo de Passos/Portas, que realizou em três anos uma única «reforma» – a desregulamentação das leis do trabalho – e tem governado deliberada e continuamente em ilegalidade constitucional. O resultado é um País empobrecido, desempregado e com a população deprimida e amargurada, com cortes aleatórios em salários e pensões, enquanto foram estrangulados os serviços sociais do Estado – Saúde, Educação, Segurança Social – e agravada a dívida de 70% do PIB para 133%, apesar dos brutais sacrifícios aplicados em nome da sua diminuição.

Hércules matou a Hidra e derrotou Cérbero. Há também um Hércules em Portugal – e a tomar consciência disso.



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