Fascismo de botas cardadas
O governo golpista avançou com o procedimento legal para proibir o Partido Comunista da Ucrânia (PCU), iniciativa que, a par do recrudescimento da ofensiva contra as forças que resistem a Kiev no Leste do país, evidenciam o avanço do fascismo.
Teme-se que a junta fascista pavimente o seu avanço militar com um banho de sangue
Em conferência de imprensa realizada anteontem, o ministro da Justiça Pavlo Petrenko, citado pela Lusa, reiterou as acusações de apoio ao «separatismo pró-russo» já anteriormente feitas ao PCU, e garantiu ter «uma quantidade importante de provas das actividades ilegais», obtidas pelos serviços de segurança (SBU) e pela procuradoria-geral, que sustentam o «pedido de proibição do PCU».
O Moscow Times, por seu lado, detalha que entre as «ilegalidades» consideradas por Kiev estão o apoio à «anexação e agressão russa na Crimeia», os apelos à alteração da ordem constitucional e da integridade territorial da Ucrânia, a organização de reuniões separatistas, o financiamento e compra de armas para organizações «terroristas» no Leste e a integração nos combates, o reconhecimento das autoridades e dos referendos nas proclamadas repúblicas populares de Lugansk e Donetsk.
A mesma fonte dá, por outro lado, voz a um dirigente do PCU, Omar Al-Ani, para quem as «provas» arroladas pelo governo golpista foram «fabricadas» com o propósito de «liquidar o único partido que continua a mover-lhe oposição e a defender os interesses populares».
A tentativa de proibição do PCU ocorre em simultâneo com o recrudescimento da ofensiva contra os anti-golpistas no Leste da Ucrânia. Durante o fim-de-semana, as forças fiéis a Kiev conquistaram os bastiões da resistência em Slaviansk e Kramatorsk, cidades sitiadas e bombardeadas durante semanas. O presidente Petro Poroshenko veio à televisão garantir que «é preciso reforçar o cerco aos terroristas».
Em Donetsk, os antigolpistas oriundos de Slaviansk e Kramatorsk reagrupam-se e prometem que a cidade de um milhão de habitantes não será abandonada. Em Lugansk, as denominadas autodefesas anunciam o reforço de posições. Os bombardeamentos a que já estão sujeitas fazem temer que a junta fascista pavimente o seu avanço militar com um banho de sangue.
Apelo do CPPC
«É com crescente preocupação que assistimos à evolução da situação na Ucrânia, onde forças que se assumem como nazi-fascistas (...) engendraram um golpe de Estado para tomar o poder, o qual, cada vez mais, recorre à violência e à repressão para se exercer», sublinha o Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC).
Em abaixo-assinado que pode ser subscrito em http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT74056, o CPPC salienta, ainda, a sucessão de «provocações e actos de pura barbárie e perseguição contra forças políticas e sociais» que se opõem ao «novo poder dos oligarcas», bem como «ofensivas militares sobre populações que procuram defender os seus legítimos direitos e a democracia».
Lembrando que «este recrudescimento e ascenso das forças de extrema-direita» ocorre quando se assinalam o 69.º aniversário da vitória sobre o nazi-fascismo e o fim da Segunda Guerra Mundial, e que tal suscita «séria preocupação por parte de todos os democratas e antifascistas» pelo que representa de perigo «para a democracia, as liberdades e direitos dos cidadãos da Ucrânia e dos povos da Europa», o Conselho da Paz realça a importância que assumem «a denúncia e condenação das forças fascistas, do imperialismo e da guerra» e apela à manifestação de solidariedade para com o povo ucraniano e «à mobilização de todos em defesa da liberdade, da democracia e da paz».
No passado dia 27, o CPPC e a União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) promoveram, no Clube Estefânia, em Lisboa, um debate sobre a situação na Ucrânia. A iniciativa, na qual participaram 70 pessoas, Gustavo Carneiro, da direcção do CPPC, e José Pedro Soares, em nome da URAP, «expressaram a sua solidariedade para com o povo da Ucrânia, assim como a sua preocupação com a escalada de violência desencadeada sobre as populações do Leste daquele país, que se recusam a reconhecer a legitimidade do poder exercido pelas forças golpistas de Kiev que, para defender os interesses dos grandes oligarcas, não hesitam em utilizar a força militar, recorrendo inclusive a grupos paramilitares que se reivindicam da herança nazi-fascista», lê-se na nota publicada no sítio do CPPC.