O futebol e o resto...

Carlos Gonçalves

Estamos em plena overdose do Futebol, do esmagamento mediático e do frenesim de massas, para durar até meados de Julho. Apoie-se a «Selecção» – eventualmente e apesar das frustrações –, mas importa denunciar o rolo compressor da alienação, com que os grandes interesses e os seus sicários visam mistificar a realidade nacional e escamotear o essencial da sua política – o esbulho sistemático ao povo e ao País e as mil e uma maneiras de o perpetuar.

O Governo PSD/CDS aproveita o circo futebolístico para continuar a cortar nos direitos – salários, pensões, contratação, férias, TSU, SNS, escola pública –, a subir o grau de confronto com a CRP e a agravar o declínio e a abdicação nacional. Ao vê-los frenéticos neste ataque em massa, à margem da lei, sem pudor nem freio, torna-se evidente que o «árbitro está comprado» (Cavaco) e fica claro que este Governo tenta recuperar do vazio de legitimidade a que foi remetido por consecutivas derrotas no apoio de massas, catástrofes eleitorais e decisões de inconstitucionalidade.

E por que não há-de o Governo atacar desenfreadamente se o PS está disponível e empenhado em que ele possa prosseguir este caminho? Porque, nem depois das eleições de Maio, com todas as condições para isso, nem uma única vez, de forma consistente, se bateu para interromper este ciclo, com a realização de eleições antecipadas, ou defendeu a rotura com este caminho de desastre. O mais longe que chegou o PS foi ao formalismo da «austeridade inteligente».

Aliás, os Antónios do PS – o Seguro e o Costa – nada reclamaram, nem demissão, nem eleições. Seguro propôs um Concelho de Estado (!), isto é transferir equívocos para o PR, e logo depois passou à proposta legislativa de batota eleitoral, para diminuir o PCP e conseguir apoios, no PSD para a sua guerra civil no PS. Costa avançou para a guerra contra Seguro sem ideias, nem rosas no regaço, nada, apenas a aura de D. Sebastião, que há-de garantir o regresso dos boys de Sócrates.

Nesta guerra do PS não há que escolher entre os Antónios. Ambos contribuem de facto para que o Governo PSD/CDS se perpetue no poder, para desgraçar ainda mais o País e para que o PS, se lá chegar, possa prosseguir a política de direita que os Antónios subscrevem.




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