Eleições e crise(s)

Ângelo Alves

O quadro é de agudização da luta de classes

O notável resultado da CDU nas eleições para o PE tem uma importância que vai para lá das fronteiras do nosso País. Ele traduz o isolamento político do Governo, a condenação das políticas das troikas, a percepção de que a social-democracia não representa qualquer caminho alternativo ao actual rumo e também o crescente distanciamento e contestação ao processo de integração capitalista na Europa – a União Europeia.

Alguns destes elementos estiveram presentes nas eleições nos outros estados membros da UE. Como sempre afirmámos a profunda crise económica e social no espaço da UE era – e é – simultaneamente uma crise da própria UE, dos seus pilares, políticas, matriz ideológica e arquitectura de poder construída pela direita e social-democracia.

Ora o que os resultados destas eleições traduzem é exactamente isso. À crise económica e social – que está longe de estar resolvida – e à contestação social generalizada somou-se agora a contestação política e eleitoral às políticas e orientações da UE. Com elementos contraditórios os resultados traduzem uma perda acentuada de influência eleitoral das forças que são responsáveis pela orientação e políticas da UE. Os cinco maiores grupos parlamentares no PE perdem no seu conjunto 104 deputados. Só o Partido Popular Europeu, isoladamente considerado, perde 61 deputados (ou seja, três vezes o número de deputados eleitos por Portugal). Simultaneamente os socialistas não só não conseguem capitalizar essa perda de deputados da direita como perdem seis deputados. Grupos mais pequenos mas igualmente responsáveis pela integração capitalista na Europa (Liberais, Verdes e conservadores) perdem 35 deputados. É uma expressão eleitoral vincada da desafeição dos povos da Europa ao projecto da União Europeia. 

Os derrotados acenam agora com os perigos dos «extremismos», tentando, como forma de se protegerem da contestação, meter no mesmo saco extrema-direita e partidos comunistas, progressistas e de esquerda que contestam o actual rumo. Mas ocultam por exemplo que os maiores crescimentos da extrema-direita não se dão nos países «pobres» do Sul, onde as massas populares sofrem mais com as consequências das políticas da UE, mas exactamente nos países do chamado «centro» da Europa de onde emanam algumas das mais dolorosas imposições e visões xenófobas «oficiais» que sustentam a visão colonial que impera na UE. É na França, na Dinamarca, na Alemanha, no Reino Unido, na Finlândia, na Áustria, que se podem registar maiores subidas dessa corrente, facto que diz muito sobre quais a razões, natureza de classe e real génese desta corrente ideológica a que o capitalismo ciclicamente recorre quando mergulhado na sua própria crise e contradições.

O crescimento eleitoral de várias forças comunistas, progressistas e de esquerda nos países mais massacrados pela política da UE, é, apesar de contradições e insuficiências que persistem, um sinal de alento para a luta que se segue, e o crescimento acentuado do GUE/NGL, o grupo do qual o PCP é fundador, traduz essa esperança.

Pela frente teremos tempos de grande turbulência e combate ideológico. As classes dominantes vão responder a estas eleições com mais violência, fugas em frente e com manipulações e chantagens políticas de grande monta. Isso irá, como a dialética nos ensina, aprofundar a crise económica e social e as contradições. O quadro é portanto de agudização ainda maior da luta de classes, de clarificação ideológica e de desenvolvimentos que podem ser súbitos e imprevisíveis. A ele teremos de responder com mais luta social, com mais ofensiva ideológica e com mais proposta política que engaje os povos na construção de um real quadro de cooperação e solidariedade na Europa.



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