Golpes da reacção
Contra a liberdade conquistada, a consolidação da democracia e as transformações revolucionárias, esteve sempre António Spínola. Apoiado pela elite política, militar e económica fascista, e pelo imperialismo, o general foi estabelecendo com as forças políticas uma relação que «correspondeu à posição e atitude destas no quadro da arrumação e luta das forças sociais» (Álvaro Cunhal, A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril (A contra-revolução confessa-se), Editorial “Avante!”, Lisboa, 1999, pp 125). Contou com «o apoio e participação diligente e pronta do CDS e dos seus dirigentes [Freitas do Amaral em primeiro plano]», com «a estreita colaboração, cumplicidade, participação activa e empenhada do PPD», e com Mário Soares e do PS, sendo esta última «uma das mais estáveis e duradouras alianças político-militares do processo contra-revolucionário.» (idem, ibidem, pp 126-128)
Com o firme propósito de chamar a si «plenos poderes até Novembro de 1976 e para lá disso» (idem, ibidem, pp. 137-138), Spínola aposta por duas vezes em golpes de Estado, e por uma vez num golpe militar. O golpe Palma Carlos, de usurpação do poder nos gabinetes, a 10 de Julho de 1974, e a «manifestação da maioria silenciosa», são «intentonas clássicas» (idem, ibidem, pp. 167). No 28 de Setembro, o plano fazia «convergir, na acção final, todas as frentes em movimento: a militar, a económica, a social, a político-partidária, a ideológica, a propagandística e a colonial, sem esquecer acções de provocação desestabilizadoras» (idem, ibidem, pp. 143). O capital promete «120 milhões de contos de investimento e 150 mil novos postos de trabalho, caso vença a maioria silenciosa”» (idem, ibidem, pp. 143).
A 20 de Setembro, Álvaro Cunhal lembra que «se a reacção aguça os dentes e se prepara para morder, é necessário partir-lhos antes que morda», e «toda essa gigantesca operação foi derrotada (…) tendo como principais e, em muitos casos, únicos promotores, organizadores e dinamizadores o PCP e o movimento sindical unitário» (idem, ibidem, pp. 154). As barragens de populares e militares montadas de Norte a Sul do País mostraram que «o heroísmo da vanguarda tinha-se tornado um fenómeno de massas» (idem, ibidem, pp 155).
Afastado da presidência da República, Spínola não desiste de intentar contra Abril, agora «de fora do poder e contra ele». O 11 de Março de 1975 é um «golpe militar típico», «não apenas preparado em termos militares, mas, como os anteriores, também no plano político e propagandístico. Ganhando apoios e cumplicidades nos partidos. Desenvolvendo campanhas e organizando provocações a fim de criar a ideia de que o PCP estava a liquidar as liberdades, a provocar o caos, a instalar uma ditadura. Respondendo aos apelos para que salvasse o país. Intensificando, pela acção de banqueiros e outros grandes capitalistas, a sabotagem económica e financeira» (idem, ibidem, pp 167-168). A tentativa de rendição do Regimento de Artilharia 1, tido como um bastião da revolução, através do seu bombardeamento e cerco, é travada pela resistência da unidade e por populares que acorreram ao local. A acção do PCP e do movimento operário popular é decisivo para a derrota do golpe.
O general foge para Madrid e é a partir daí que orquestra o terrorismo bombista do «Verão Quente de 1975», lançado contra o PCP enquanto o PS/Mário Soares se torna «o campeão da desestabilização, do anticomunismo e confronto» (idem, ibidem, pp. 202). PS/Mário Soares movem uma «guerra aberta contra o primeiro-ministro Vasco Gonçalves (idem, ibidem, pp 183-184), cujo governo abandonam, com o PPD, em Julho de 1975. Vasco Gonçalves ainda seria empossado para um novo Governo Provisório, o V, a 8 de Agosto, um dia depois da divulgação do documento do «grupo dos nove», mas «com o pronunciamento de Tancos, a 2 de Setembro, conseguem finalmente consumar o resultado: Vasco Gonçalves exonerado de primeiro-ministro e de efectivas responsabilidades militares» (pp 186).
Daí ao 25 de Novembro correm semanas de mais provocações e calúnias, às quais acresce que «uma situação militar favorável à revolução era irrecuperável» dadas as clivagens e inoperacionalidade no seio da esquerda militar, muito em resultado da acção de sectores esquerdistas. «A contra-revolução avançava rapidamente para impor, através de um novo golpe militar, a instauração de uma nova ditadura e o desencadeamento de uma repressão violenta do PCP, da esquerda militar, do movimento sindical e de outras forças da revolução» (idem, ibidem, pp. 203). O PCP tem «como objectivo central e fundamental procurar e contribuir para uma solução política da crise político-militar» (idem, ibidem, pp. 206), o que viria a suceder, e, apesar do golpe, conservando a dinâmica revolucionária e de resistência à ofensiva contra Abril.