Militares e povo puseram fim ao fascismo

Abrir as portas do futuro

A Acção do MFA que pôs fim à di­ta­dura foi um le­van­ta­mento mi­litar, logo se­cun­dado por um le­van­ta­mento po­pular

Re­gres­sado a Por­tugal no dia 30 de Abril, Álvaro Cu­nhal é re­ce­bido no ae­ro­porto de Lisboa por uma mul­tidão 

 

A jor­nada do 1.º de Maio de 1974 con­firmou a força re­vo­lu­ci­o­nária das massas nas trans­for­ma­ções
do 25 de Abril
 

 

A 17 de Maio de 1974, o Avante! era edi­tado pela pri­meira vez de forma legal, dando conta das re­a­li­za­ções de­mo­crá­ticas al­can­çadas desde o dia 25 de Abril 

 

A li­ber­tação dos presos po­lí­ticos, como a ex­tinção da PIDE, foi obra dos mi­li­tares do MFA e do povo por­tu­guês
 

 

O PCP passou ra­pi­da­mente de um forte par­tido de qua­dros a um grande par­tido de massas. Em Ou­tubro de 1974 tinha já mais de 30 mil mi­li­tantes, que se­riam 100 mil sete meses de­pois. O seu Co­mité Cen­tral, com­posto por 36 mem­bros, so­mava 755 anos de clan­des­ti­ni­dade e 308 anos de prisão

Quando, na manhã de 25 de Abril de 1974, os he­róicos ca­pi­tães do Mo­vi­mento das Forças Ar­madas (MFA) der­ru­baram o go­verno fas­cista, não es­tavam sós. Ao seu lado es­ti­veram, desde as pri­meiras horas dessa ma­dru­gada li­ber­ta­dora, am­plas massas do povo por­tu­guês, se­cun­dando e apoi­ando a sua acção e in­ter­vindo di­rec­ta­mente no curso dos acon­te­ci­mentos, que se su­ce­diam a um ritmo ver­ti­gi­noso. Ao le­van­ta­mento mi­litar pro­ta­go­ni­zado pelo MFA se­guiu-se, quase de ime­diato, um ir­re­pri­mível le­van­ta­mento po­pular, o que con­feriu à Re­vo­lução por­tu­guesa um cunho pro­fun­da­mente de­mo­crá­tico e pro­gres­sista.

Na me­mória co­lec­tiva per­ma­necem, vivas, as ima­gens de mi­li­tares e povo to­mando as ruas, cer­cando o go­verno no Largo do Carmo e os pides na sua sede – ga­ran­tindo que ambos dei­xa­riam de­fi­ni­ti­va­mente de ter qual­quer papel na vida do País. Ima­gens que são, ainda hoje, tes­te­mu­nhos im­pres­sivos desta ob­jec­tiva fusão de in­te­resses e ob­jec­tivos que uniu numa mesma as­pi­ração os mi­li­tares do MFA e o povo por­tu­guês: era a «Ali­ança Povo-MFA» a cons­ti­tuir-se, desde cedo, no ter­reno con­creto da luta.

Nas horas e dias que se se­guiram à ren­dição de Ca­e­tano e Tomás, os mi­li­tares pro­gres­sistas e o povo dei­taram mãos à ta­refa de des­truir de­fi­ni­ti­va­mente o fas­cismo e todos os seus ins­tru­mentos, algo que o ge­neral Spí­nola e os seus ali­ados pro­cu­raram a todo o custo evitar, do alto do poder que lhes caiu no colo.

Con­quistar as li­ber­dades

Na ver­dade, Spí­nola, de­sig­nado no pró­prio dia 25 de Abril pre­si­dente da Junta de Sal­vação Na­ci­onal, não tinha qual­quer in­tenção de ex­tin­guir a PIDE ou li­bertar os pri­si­o­neiros po­lí­ticos. Mas a von­tade do ge­neral pouco con­tava face ao im­pa­rável mo­vi­mento das massas e dos ca­pi­tães: umas e ou­tros cer­caram a sede da PIDE, pren­deram os seus agentes e pu­seram fim à si­nistra po­lícia; umas e ou­tros di­ri­giram-se às mas­morras e li­ber­taram, até ao úl­timo, os an­ti­fas­cistas que lá es­tavam en­car­ce­rados. O ge­neral tentou também im­pedir a le­ga­li­zação dos par­tidos po­lí­ticos e a pu­bli­cação legal do Avante! com a foice e o mar­telo, mas foi der­ro­tado.

En­tre­tanto, em inú­meros mu­ni­cí­pios, foram de­postas as câ­maras fas­cistas e no­me­adas co­mis­sões ad­mi­nis­tra­tivas, da con­fi­ança do povo; os jor­nais, as rá­dios e a te­le­visão co­me­çaram logo a pu­blicar e emitir sem cen­sura; os tra­ba­lha­dores e o povo reu­niam-se e as­so­ci­avam-se li­vre­mente. A con­quista das li­ber­dades foi, pois, al­can­çada in­de­pen­den­te­mente do poder po­lí­tico e, em al­guns mo­mentos, à re­velia deste. Esta foi, pre­ci­sa­mente, uma das marcas dis­tin­tivas da Re­vo­lução de Abril.

Ava­li­ando, em Ou­tubro desse ano de 1974 (da tri­buna do VII Con­gresso do PCP), os pri­meiros meses de re­vo­lução, Álvaro Cu­nhal su­bli­nharia que os êxitos até então ve­ri­fi­cados «nem os podia al­cançar o MFA sem as forças de­mo­crá­ticas e as massas po­pu­lares, nem os po­de­riam al­cançar as forças de­mo­crá­ticas e as massas po­pu­lares sem o MFA».

Abril con­fir­mado em Maio

Se o 25 de Abril der­rubou o go­verno fas­cista, a grande – imensa! – jor­nada de 1.º de Maio con­firmou a vi­tória da re­vo­lução e o papel des­ta­cado que nela tinha, e teria daí em di­ante, o mo­vi­mento ope­rário e sin­dical. Em Lisboa, mais de um mi­lhão de pes­soas par­ti­ci­param na ma­ni­fes­tação, na qual dis­cursa Álvaro Cu­nhal, re­gres­sado a Por­tugal na vés­pera: «esta imensa ma­ni­fes­tação, pela pos­si­bi­li­dade da sua re­a­li­zação e por si mesma, é a afir­mação ir­re­fu­tável de que a classe ope­rária, o povo tra­ba­lhador, todos os de­mo­cratas, os mi­li­tares, a Nação por­tu­guesa in­teira, estão fir­me­mente de­ci­didos a levar até ao cabo a li­qui­dação do fas­cismo e dos seus restos, a con­so­lidar e alargar as li­ber­dades, em pôr fim à guerra, em ins­taurar em Por­tugal um re­gime de­mo­crá­tico. São estes os ob­jec­tivos fun­da­men­tais da hora pre­sente. Eles podem e devem ser al­can­çados. Se o qui­sermos, sê-lo-ão.» No Porto e em muitas ou­tras ci­dades, há também im­pres­si­o­nantes ma­ni­fes­ta­ções.

O 1.º de Maio de 1974, que vinha já sendo pre­pa­rado pelo PCP e pela In­ter­sin­dical (criada quase quatro anos antes), foi de­ci­sivo para o de­sen­vol­vi­mento da re­vo­lução por­tu­guesa com as ca­rac­te­rís­ticas que as­sumiu. Dias antes, num en­contro com uma de­le­gação do PCP, Spí­nola afir­mara, em tom de ameaça, que a ma­ni­fes­tação do 1.º de Maio re­ve­laria a ver­da­deira in­fluência do PCP entre os tra­ba­lha­dores e, em úl­tima aná­lise, mos­traria se o Par­tido me­recia ou não a le­ga­li­dade que re­cla­mava. Teve a sua res­posta!




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