Abrir as portas do futuro
do 25 de Abril
Quando, na manhã de 25 de Abril de 1974, os heróicos capitães do Movimento das Forças Armadas (MFA) derrubaram o governo fascista, não estavam sós. Ao seu lado estiveram, desde as primeiras horas dessa madrugada libertadora, amplas massas do povo português, secundando e apoiando a sua acção e intervindo directamente no curso dos acontecimentos, que se sucediam a um ritmo vertiginoso. Ao levantamento militar protagonizado pelo MFA seguiu-se, quase de imediato, um irreprimível levantamento popular, o que conferiu à Revolução portuguesa um cunho profundamente democrático e progressista.
Na memória colectiva permanecem, vivas, as imagens de militares e povo tomando as ruas, cercando o governo no Largo do Carmo e os pides na sua sede – garantindo que ambos deixariam definitivamente de ter qualquer papel na vida do País. Imagens que são, ainda hoje, testemunhos impressivos desta objectiva fusão de interesses e objectivos que uniu numa mesma aspiração os militares do MFA e o povo português: era a «Aliança Povo-MFA» a constituir-se, desde cedo, no terreno concreto da luta.
Nas horas e dias que se seguiram à rendição de Caetano e Tomás, os militares progressistas e o povo deitaram mãos à tarefa de destruir definitivamente o fascismo e todos os seus instrumentos, algo que o general Spínola e os seus aliados procuraram a todo o custo evitar, do alto do poder que lhes caiu no colo.
Conquistar as liberdades
Na verdade, Spínola, designado no próprio dia 25 de Abril presidente da Junta de Salvação Nacional, não tinha qualquer intenção de extinguir a PIDE ou libertar os prisioneiros políticos. Mas a vontade do general pouco contava face ao imparável movimento das massas e dos capitães: umas e outros cercaram a sede da PIDE, prenderam os seus agentes e puseram fim à sinistra polícia; umas e outros dirigiram-se às masmorras e libertaram, até ao último, os antifascistas que lá estavam encarcerados. O general tentou também impedir a legalização dos partidos políticos e a publicação legal do Avante! com a foice e o martelo, mas foi derrotado.
Entretanto, em inúmeros municípios, foram depostas as câmaras fascistas e nomeadas comissões administrativas, da confiança do povo; os jornais, as rádios e a televisão começaram logo a publicar e emitir sem censura; os trabalhadores e o povo reuniam-se e associavam-se livremente. A conquista das liberdades foi, pois, alcançada independentemente do poder político e, em alguns momentos, à revelia deste. Esta foi, precisamente, uma das marcas distintivas da Revolução de Abril.
Avaliando, em Outubro desse ano de 1974 (da tribuna do VII Congresso do PCP), os primeiros meses de revolução, Álvaro Cunhal sublinharia que os êxitos até então verificados «nem os podia alcançar o MFA sem as forças democráticas e as massas populares, nem os poderiam alcançar as forças democráticas e as massas populares sem o MFA».
Abril confirmado em Maio
Se o 25 de Abril derrubou o governo fascista, a grande – imensa! – jornada de 1.º de Maio confirmou a vitória da revolução e o papel destacado que nela tinha, e teria daí em diante, o movimento operário e sindical. Em Lisboa, mais de um milhão de pessoas participaram na manifestação, na qual discursa Álvaro Cunhal, regressado a Portugal na véspera: «esta imensa manifestação, pela possibilidade da sua realização e por si mesma, é a afirmação irrefutável de que a classe operária, o povo trabalhador, todos os democratas, os militares, a Nação portuguesa inteira, estão firmemente decididos a levar até ao cabo a liquidação do fascismo e dos seus restos, a consolidar e alargar as liberdades, em pôr fim à guerra, em instaurar em Portugal um regime democrático. São estes os objectivos fundamentais da hora presente. Eles podem e devem ser alcançados. Se o quisermos, sê-lo-ão.» No Porto e em muitas outras cidades, há também impressionantes manifestações.
O 1.º de Maio de 1974, que vinha já sendo preparado pelo PCP e pela Intersindical (criada quase quatro anos antes), foi decisivo para o desenvolvimento da revolução portuguesa com as características que assumiu. Dias antes, num encontro com uma delegação do PCP, Spínola afirmara, em tom de ameaça, que a manifestação do 1.º de Maio revelaria a verdadeira influência do PCP entre os trabalhadores e, em última análise, mostraria se o Partido merecia ou não a legalidade que reclamava. Teve a sua resposta!