Vão à rua
Ouvir Brahms (como estou a ouvir) enquanto escrevo sobre o Governo de Passos Coelho convoca a situação criada por Kubrick no Laranja Mecânica, onde o temperamento violento do marginal «Alex» era neutralizado impondo-se-lhe a visão de barbaridades (que ele adorava) ao som da música de Beethoven (que ele idolatrava), inculcando-lhe, assim, um perverso reflexo pavloviano que o incapacitava para a violência.
Mas o que no genial filme de Kubrick era uma tortura, no caso passa a refrigério: escrever sobre esta agremiação, só mesmo com a ajuda de Brahms e Companhia.
Após esta informação desnecessária (mas um desabafo), voltemo-nos para o circo governamental, cujo «número» desta semana ilumina o esconso e os escombros a que isto chegou. Referimo-nos à convocacação dos jornalistas, por um secretário de Estado da Administração Pública, para lhes comunicar uma coisa «de fonte oficial» (ele próprio), mas que não podia ser identificada como de fonte pessoal (ele, o oficialíssimo secretário de Estado).
E a coisa que o secretário queria comunicar resumia-se à informação de que o Governo estava a preparar a «conversão em definitivos» dos cortes actualmente em «aplicação extraordinária» às reformas e pensões, no quadro da CES. Foi a barafunda do costume: em Moçambique, o primeiro-ministro descarregou no secretário dizendo que «tudo não passava de especulação» e «pedia serenidade também no Governo», o Paulinho dos submarinos despejou na AR, estridulando na sua augusta vicência, que o briefing com os jornalistas «foi um erro» e que nada estava decidido sobre o assunto, enquanto Marques Guedes falava em «alarmismo injustificado» e que «não é intenção do Governo» cortar de novo nos pensionistas.
Toda a gente está farta deste filme: o Governo «lança uma lebre» (que pode ir do ministro ao secretário ou ao «consultor») a anunciar mais uma medida brutal, recolhe as reacções e de imediato desmente e desautoriza o que se disse e quem o disse, julgando ganhar «a vantagem» de já ter publicitado a medida sem o ónus de a ter ainda anunciado.
É o que dá o chico-espertismo ser o mentor deste Governo.
Tendo, desde sempre, a mentira como peça instrumental, o Governo há muito que sofisticou o processo: antecipa a realidade das suas intenções e desmente-as de seguida, contando com a solícita contribuição de muitos órgãos de comunicação social que, actuando entre as baias dos donos, insistem em credibilizar mentiras sistemáticas e mentirosos compulsivos com perguntas a jeito e silêncios inacreditáveis sobre a farsa em cena no País há três anos.
Mas a descredibilização é como a água, tanto dá até que fura. Um exercício de três anos a mentir sistematicamente, com o único objectivo de arruinar o País e lançar o povo numa desarmada miséria, lançou o Governo num descrédito letal.
Vão à rua, vejam e ouçam. A qualquer rua e em qualquer cidade do País.