O neto do Baptista-Bastos

Nuno Gomes dos Santos

A sala estava cheia. De gente conhecida e anónima, de sorrisos e máquinas fotográficas, de abraços e expectativa.

Por mim falo e, decerto, serei corroborado pela maioria dos presentes no evento: a expectativa não era a de desvendar o conteúdo de um livro cujas parcelas, compostas por belíssimas crónicas, assertivas, ternas, amargas, combatentes, eu já frequentara, semanalmente, nos jornais. Aposto mais nas perguntas de todos, como: o que é que o autor me vai escrever na dedicatória; quem ainda não vi e que por certo aqui estará ou deve estar a chegar; que dirão do livro e de quem o escreveu os apresentadores dele. Porém, a minha, maior, era a de ouvir um grande escritor, um mestre de Jornalismo, palavra aqui começada com a maiúscula que a designação da profissão merece quando quem a pratica o faz com a dignidade e a humanidade que a define e a justifica, um homem de ideais, de generosidade, de firmeza e de ternura.

Gostei da dedicatória. Porque revela anos de vida cúmplice e camarada numa síntese de abraço. Mas encantei-me, como sempre que com ele privo ou o ouço dissertar sobre temas que, inevitavelmente, desembocam na profissão que mais ama, com as palavras desse homem com «voz de areia molhada», como o próprio classifica a forma como lhe é permitido exprimir-se oralmente.

Como os mais atentos já devem ter percebido, refiro-me ao Armando Baptista-Bastos e ao seu último livro (até ver!), «Tempo de Combate», lançado num dia chuvoso de Fevereiro em Lisboa.

Aguentei uma avalancha de gente numa fila extensa de caçadores de autógrafos, os discursos afáveis e «objectivos» (ai a objectividade, Armando! Aonde é que isso nos levaria!), uns mais bem conseguidos outros nem tanto mas despachem-se, obrigado pelo que disseram, falo em meu nome e do visado, perdoem-me a impaciência e deixem lá falar o homem.

O homem falou. Dos tempos que vivemos, das infâmias, dos pobres, dos que nos tornam pobres, da soberania agredida, da revolta, do combate. E de ternura que, sem ela a temperar as suas palavras, não é o filho do velho Bastos a falar.

Comovi-me, claro. Um dos seus netos resolveu, às tantas, ir ter com o avô em pleno estrado no qual se perfilavam editores e directores de jornais, com o BB no centro geográfico dele e no centro das atenções de todos. Foi aí que o lançamento adquiriu a humanidade que o Armando nos estava a transmitir por palavras, e nenhum encenador conceberia melhor essa tradução, na prática, do que o verbo exibia, contando, no fundo, a realidade ali acontecida: o sonho de um futuro melhor, a justificação de uma vontade indomável de combater por esse futuro e já, neste presente que vai marcar os dias que virão.

Enterneci-me. Enternecemo-nos todos, creio eu. Saí de livro novo debaixo do braço e ala que se faz tarde. Não tive tempo de dizer Armando, desculpa lá esta pressa mas vou daqui para um concerto do Samuel de quem tu gostas e que, não fora as circunstâncias, talvez nos juntasse numa sala cheia de palavras e de sons, de ternura e de combate, cantadas a (nosso) contento.

As maiores felicidades para o teu neto.




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