Trampolinices
Ir ao Museu Nacional de Arte Antiga visitar a muito propagandeada exposição RUBENS, BRUEGHEL, LORRAIN. A Paisagem Nórdica do Museu do Prado, é ir ao engano. Quem pensa que vai ver Pieter Brueghel, o Velho, o grande Brueghel, o mais famoso de todos os Brueghel, não o encontra. Os que estão lá representados são os seus filhos, Pieter Brueghel, o Jovem, Jan Brueghel, o Velho e netos Jan Brueghel, o Jovem e Abraham Brueghel. A colaboração de Rubens é com Jan Brueghel, o Jovem que também fez muitas das ornamentações dos quadros de Rubens.
Deve-se ir com um pé, para não dizer os dois pés atrás, depois de ler a nota de Imprensa do MNAA e as notícias nos jornais. A parceria entre o MNAA e o Museu Nacional do Prado, que é descrito e muito bem, como o mais importante de Espanha e um dos mais importantes do mundo, tem a intermediação da Everything Is New, o que faz logo sentir um leve cheiro a fénico.
Na referida Nota de Imprensa lê-se: «A Everything Is New volta a apostar na produção de uma grande exposição, após o sucesso da primeira experiência realizada no Palácio Nacional da Ajuda onde foram batidos recordes nacionais de visitantes, com Rubens, Brueghel, Lorrain, A Paisagem Nórdica do Museu do Prado, o MNAA inicia um novo caminho na produção de grandes exposições associando-se à produtora cujo rigor e profissionalismo na organização de eventos se encontram completamente reconhecidos, possibilitando a otimização dos circuitos difusores e um acréscimo de eficácia na relação com o turismo nacional». Texto em estilo futebolístico, escrito segundo as regras do novo acordo ortográfico. A referida primeira experiência e incursão da EIN nas artes «que bateu recordes nacionais de visitantes» foi a exposição kitch da nossa adorável Joaninha que começa a competir em popularidade com o Tony Carreira pela mão e pelo pé de Álvaro Covões, senhor de grandes saberes circenses adquiridos com os seus antepassados. Não se enganou ao escolher a Joaninha que, depois de bem amestrada, lhe deve proporcionar chorudos ganhos. Está tudo certo, a grande arte para ele é o cacau! O que já não está certo é o MNAA embarcar nesse ferry-boat, apresentando como uma exposição de extraordinária importância, uma exposição simpática, agradável em que dois grandes pintores, Rubens e Lorrain estão pouco representados, embora com obras notáveis, e muito representados os Brueghel, filhos e netos do ausente Pieter Brueghel, o Velho, esse sim um extraordinário pintor, que viveram, pintaram e tiveram êxito à sua sombra, levam ao engano pelo uso legítimo do apelido. O que não é legítimo é o título enganador. Nada disto foi esclarecido na conferência de imprensa de apresentação da exposição, o que é lamentável. Compreende-se que o Covões não quisesse esclarecer, provavelmente nem sabe. Para ele isso não é importante, poderia reduzir o número de visitantes. As receitas é o que lhe interessa, o rigor histórico e científico um pormenor. Aos directores do MNAA e da DGPC era e é o mínimo que se pode e deve exigir.
Claro que a exposição nunca é gratuita. Uma exposição trombeteada como coisa extraordinária e rara, conseguida com o suor do «rigor e profissionalismo na organização de eventos» transposto para as exigências das indústrias criativas e culturais, um nicho de mercado a que o Covões agora se dedica, não deixam ver arte à borla, chão que já deu uvas. O Covões não está ali para perder grana. Ele é como a Formiga Bossa Nova do Alexandre O’Neil (*). Não lhe causa urticária alguma a intrujice de esta não ser uma exposição verdadeiramente representativa da Paisagem Nórdica do Museu do Prado. Esta exposição, que um bom marquetingue elege como singular, inusual e incomum é uma exposição destinada às cidades de província espanholas, circuito em que Lisboa agora já se pode inscrever.
Claro que isto não anda desligado de tudo o resto que se passa em Portugal, onde se tornou vulgar vender gato por lebre, na cultura ser contumazmente ignorante, falacioso e sem princípios, como se viu agora com o caso Miró. Estes são os novos caminhos que o bando de pantomineiros que mede tudo pela bitola do cifrão trilham enquanto vão delapidando Portugal, tanto material como eticamente.
(*) (…) Assim devera eu ser: /de patinhas no chão,/formiguinha ao trabalho/ e ao tostão. // Assim devera eu ser/ se não fora/ não querer.// (-Obrigado, formiga!/Mas a palha não cabe/onde você sabe…)