Professor praxado
Na sequência da tragédia da praia do Meco, a brutalidade de grande parte das praxes académicas tornou-se tema presente em todos os canais da televisão portuguesa, e ainda bem. Excelentes reportagens viajaram até ao passado verdadeiramente escandaloso dessas práticas, foram recordados alguns crimes já esquecidos, depoimentos e opiniões vieram permitir a expectativa de que alguma coisa de verdadeiramente importante seja alterada nessa tristíssima matéria e que não venhamos a presenciar o que muitas vezes sucede em situações de diversa natureza mas semelhantes quanto à indignidade fundamental: que, passada a generalizada rejeição, o sobressalto amaine e tudo acabe por ficar na mesma pelo menos quanto ao essencial até que seja conhecido um outro crime motivador de uma outra onda de rejeição. Como se pode saber sem grandes investigações, as praxes em maior ou menor grau violentas têm a ver com um modelo de sociedade em que a bruteza do mais poderoso se exerce sobre o socialmente mais débil e adquire força de «lei»; e não foi certamente por acaso que a imposição dessas práticas brutais, que enfraquecera depois de 74, veio crescendo em número e intensidade ao mesmo tempo que as diversas forças anti-Abril de fachada democrática vieram recuperando posições por todo o lado até chegarem onde hoje claramente as vemos. Por outro lado, como aliás tem agora vindo a ser dito na TV e fora dela, as praxes brutais e a sua aceitação pelo praxado são lições práticas de submissão com consequências e sequelas que não se limitam ao âmbito e ao tempo da vida académica. Não nos iludamos: como um dia lembrou o poeta Eduardo Guerra Carneiro no título de um seu livro de poemas, «isto anda tudo ligado».
Submisso e resignado
Mas nem todas as praxes são rudes e óbvias, há-as relativamente leves, utilizando uma qualquer forma de veneno e não a evidência da opressão física mas de qualquer modo visando como resultado final a humilhação do praxado. Também não será excessivo sustentar que a imposição de praxes humilhantes não é exclusiva da vida académica em tempos que favorecem a brutalidade, sendo extensiva a outras áreas e apenas devendo talvez manter uma condição: a de praxante e praxado pertencerem ambos ao mesmo grupo humano, circunstância que explicará a possibilidade da aplicação da praxe e a sua aceitação. Ora, nestes últimos dias ocorreu precisamente uma praxe desse tipo, não em território académico mas sim no que poderia designar-se por «alta política» se não fosse infelizmente o da política rasteira. Sucedeu ela quando, do alto da sua reeleição como presidente do PSD, o dr. Passos Coelho se aplicou a verbalizar um retrato-robot do professor Marcelo Rebelo de Sousa como o de um sujeito que ele, Passos Coelho, não estaria disposto a aceitar como Presidente da República. Para justificar a recusa, o dr. Passos chegou mesmo a caracterizar o retrato que fazia com um ou dois traços verdadeiramente humilhantes, tais como o de chamar catavento ao praxado. Poder-se-ia duvidar da identificação do praxado se não tivesse acontecido o capítulo seguinte, digamos assim: aquele em que o professor Marcelo, submisso e aparentemente resignado, usou a sua habitual intervenção na TVI para reconhecer formalmente que sim, o visado era ele, o rejeitado era ele, o catavento era ele. Estava aceite a humilhação, fechado o episódio e concluída a praxe. É certo haver os que, sendo provavelmente telespectadores de cabecinha formatada por muitas telenovelas consumidas ao longo dos serões, suspeitam de que esta peculiar praxe pode parecer-se com uma novela com vários episódios de que este seja apenas o inicial e com uma reviravolta final, mas esta parece ser uma hipótese improvável: o professor Marcelo, até como cristão exemplar que é, estará talvez mais disponível para oferecer a outra face. Resta que o dr. Passos Coelho vai ter de buscar um candidato a seu gosto, isto é, obediente a um só vento e suficiente invertebrado. Mas a tarefa não lhe será difícil se procurar no grupo que seria designável por «seus fiéis» se não fosse talvez mais exacto designar por «seus submissos».