A nódoa

Henrique Custódio

A «retoma», o «regresso aos mercados», os «sinais moderados de recuperação», a «descida do desemprego», a «saída da recessão» e a «libertação da troika» constituem o actual argumentário da trupe que nos governa.

Decerto guiados pela ideia de Goebbels – «uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade» –, os vivaços de S. Bento mudaram de novo a agulha e apresentam una visão oposta à que defendiam há um mês – a de que o País estava «à beira de um segundo resgate».

Agora está «a caminho do progresso». Pelo meio, tentam de novo pôr os reformados a pagar o que o TC chumbou há também um mês.

Utilizando umas décimas para cima ou para baixo, fizeram a «multiplicação dos pães» no desemprego (que «desceu»), na recessão (que «acabou»), na crise generalizada que agora «dá sinais moderados de recuperação», na «retoma» que está «de regresso», enquanto a troika passou de «abençoada» a «maldita» e «vamos-nos livrar dela» lá para o meio do ano.

Repetem isto à exaustão, só não dizendo duas coisas simples.

Primeiro, que as décimas nas «comparações homólogas» são pura irrelevância.

Segundo, que as mesmas décimas são uma mentira, pois nada significam perante a volatilidade das previsões e a catástrofe que instalaram no País.

Este Governo é uma fraude monumental em palavras e actos, parafraseando a Contrição católica. Os exemplos são prolixos e chocantes: a troika começou por ser «o programa do Governo» e agora «impõe-nos um protectorado», Portas demite-se «irrevogavelmente» e no dia seguinte regressa como vice-primeiro-ministro, as privatizações seguem a galope e nas costas da AR, Passos Coelho chama «piegas» aos portugueses, exorta-os a emigrar e a sair da «zona de conforto» e hoje, após acumular um desemprego monstruoso, esquece os que emigraram e finge que o desempego «baixou» e etc. Dizem e desdizem conforme lhes dita a sobrevivência, mas sempre prosseguindo o seu «trabalho» de destruição do Estado democrático. Governam despudoradamente para o capital, esmifram apenas os trabalhadores e os reformados com cortes e impostos sempre inconstitucionais, prosseguem a destruição do Ensino, da Saúde e da Segurança Social, agravam todos os dias uma dívida impagável e mentem com a desfaçatez dos vigaristas de feira.

Do outro lado está o projecto político dos senhores da Europa em acabar com as funções sociais do Estado e com quem as defenda constitucionalmente – como nós. Foram obrigados a importá-las da União Soviética após esta esmagar o nazismo alemão, mas a URSS já não existe e o capitalismo tomou de novo o freio, desarticulando o sistema com hiper-especulação, «deslocalizando» a economia e lançando os seus povos no declínio, para, enfim, deslocar o centro de gravidade do capital para os países emergentes. E depois a violência predadora recrudescerá, com novos protagonistas.

É o tempo do mundo voltar a Marx e a Lenine.

Entretanto, Cavaco há-de ser obrigado a «benzinar» a nódoa de S. Bento.




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