Repressão, resistência e luta
O Forte de Peniche acolhe, desde o passado dia 3, e até ao início de 2015, uma exposição dedicada à prisão política do fascismo, à resistência aí travada e às fugas realizadas. A mostra resulta de uma parceria entre o município e a URAP.
Centenas de pessoas visitaram a exposição no primeiro dia
A exposição, intitulada «Forte de Peniche – Local de Repressão, Resistência e Luta», foi inaugurada na tarde de sexta-feira, 3, naquela que foi a primeira iniciativa comemorativa da histórica fuga de Janeiro de 1960 que teve lugar no passado fim-de-semana. A inauguração decorreu numa das entradas do Forte, pois nenhum dos espaços interiores existentes conseguiria albergar todos os que fizeram questão de, com a sua presença, homenagear os 2487 resistentes antifascistas que passaram por aquela prisão (cujos nomes ocupam uma parede de uma das salas em que a mostra se encontra patente), e entre eles – e particularmente – Álvaro Cunhal, cujo centenário se assinalava igualmente naquela iniciativa. Um dos painéis da exposição é-lhe, aliás, exclusivamente dedicado.
Na cerimónia de abertura da exposição – imediatamente visitada por centenas de pessoas, vindas de todo o País – marcaram presença, entre outros, o Secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa; Jaime Serra, que foi um dos participantes da fuga; e a irmã de Álvaro Cunhal, Maria Eugénia. Intervieram o presidente da Câmara Municipal de Peniche, António José Correia; o dirigente da URAP José Pedro Soares; e o membro do Secretariado do Comité Central do PCP, José Capucho.
Lembrar para que não se repita
O membro do Secretariado do CC, intervindo em nome da Comissão das Comemorações do Centenário de Álvaro Cunhal, que se associou à iniciativa, realçou a luta constante dos comunistas e dos restantes antifascistas, que nem quando se encontravam presos cessavam de resistir e de combater. Muitos dos presos, acrescentou, «estudaram, escreveram, desenharam, esculpiram, construíram com os materiais mais simples os mais variados objectos».
Salientando que a «vida na prisão não deixou lá fora a luta do povo e do Partido», José Capucho chamou a atenção para a permanente comunicação entre os presos e entre estes e o exterior – só possível com muitos cuidados, disciplina, rigor e imaginação. E valorizou também a manutenção, nas condições prisionais, da organização do Partido. A ela se deveu, em grande medida, as constantes lutas dos presos que tantas e tantas vezes obrigaram os carcereiros a recuar na sua sanha opressora. O dirigente do PCP destacou ainda as diversas fugas efectuadas e como os seus protagonistas tinham como objectivo fundamental o retorno à luta revolucionária no exterior.
Antes, já José Pedro Soares (ele próprio um antigo preso político em Peniche) tinha salientado que a fortaleza de Peniche fora um «local de encarceramento de muitos dos mais determinados e consequentes lutadores antifascistas», mas também um local de permanente combate, resistência e luta. Uma luta que não envolveu apenas os presos, mas também os seus familiares e amigos e, tantas vezes, os advogados democratas. E que transpôs fronteiras.
O dirigente da URAP valorizou ainda o protocolo estabelecido entre associação antifascista e a Câmara Municipal de Peniche, que «já permitiu realizar o levantamento e identificação dos cerca de 2500 presos que passaram pela cadeira do Forte de Peniche».
António José Correia, por seu lado, manifestou a intenção do município de «divulgar o que se passou e que não queremos que se volte a passar», lembrando que a exposição estará patente durante todo o ano de 2014 – ano em que se cumprem os 80 anos da passagem do forte de Peniche a prisão política e os 40 anos da Revolução de Abril.
Fortaleza de resistência
A exposição que desde sexta-feira está patente no Forte de Peniche vem colmatar aquela que era – e de certa forma ainda é – uma grave lacuna: a quase total ausência de informação pública sobre o que foi a ditadura fascista, o que representou, qual a sua natureza e que interesses servia; e, por outro lado, quem eram os que se lhe opunham e toda a espécie de violências e barbaridades a que, por isso e apenas por isso, eram sujeitos. Porque o fascismo existiu! E torturou, prendeu e assassinou.
Ao longo de duas salas – que se vêm agora somar aos restantes espaços do Forte que servem já de testemunho histórico: as celas, o parlatório e o segredo –, a exposição conta a história desta cadeia desde 1934 até ao 25 de Abril, uma história carregada de violência e arbitrariedade que transpunham os muros da prisão e se estendiam a toda a população de Peniche, permanentemente vigiada e controlada pela PIDE, que dirigia a cadeia.
Mas o que a história da prisão do Forte de Peniche revela e a exposição valoriza é a resistência dos presos e as lutas que travaram por melhores condições de higiene e alimentação e contra os maus tratos de que eram vítimas. Uma resistência patente na organização constante dos presos, em primeiro lugar dos comunistas, que discutiam questões da actualidade, definiam tarefas e inclusivamente editavam órgãos de imprensa. Uma resistência que teve nas fugas – nas tentadas e nas bem sucedidas – um exemplo maior, entre as quais assume um lugar cimeiro a de 3 de Janeiro de 1960, muito embora não tenha sido a única.
Em destaque nesta exposição, na segunda das salas que a albergam, está, a toda a largura da parede, o nome de todos os 2487 antifascistas que por ali passaram. A despertar a curiosidade dos visitantes estão também as biografias dos 10 protagonistas da fuga de Janeiro de 1960 e alguns objectos feitos pelos presos.