A fome e a Nova Ordem Mundial
«O Neoliberalismo procura alcançar na Europa o que já conseguiu nos EUA, a partir de 1979, quando os salários reais pararam de crescer. O objectivo é duplicar a fatia de riqueza possuída por 1% dos mais ricos. Isto envolve reduzir a população à pobreza, destruir o movimento sindical e arruinar o mercado interno como condição prévia para atribuir aos mercados – as forças indefinidas que se ocultam atrás das políticas – as culpas de tudo o que se passa» (Prof. Michael Hudson “The Neoliberal Experiment and Europe's anti-Austerity Strikes, Setembro de 2010).
«A maior parte dos pensionistas não são pobres e estão a fingir que são pobres … Continuamos a gastar mais dinheiro do que recebemos… Mas estamos a melhorar… O vento mudou… O que tem estado a acontecer, é uma emergência financeira em que se tem cortado onde há dinheiro. E, de facto, o Estado social tem a maior parte do dinheiro que o Estado gasta… O Estado social continuará a sobreviver se tiver o bom senso de se ajustar às novas condições...» (João César das Neves, fundamentalista católico do Opus Dei e neocapitalista, em entrevista ao Diário de Notícias, 17.11.2013).
«A Nova Ordem Mundial alimenta-se da pobreza humana e da destruição do ambiente natural... A fome é a consequência do processo de restauração do mercado livre com raízes na crise de endividamento dos anos 80. O seu resultado é a globalização da pobreza...» (Michael Chossudovsky, prof. Economia na Universidade de Otava, 2008).
Perante os cortes e atrocidades do capitalismo, o homem da rua interroga-se frequentemente: – «Mas afinal, o que é que eles querem?». Porque a verdade é que ninguém compreende que o Poder, qualquer que ele seja, destrua sem substituir; que a sociedade seja um campo experimental e o homem uma cobaia. Tudo o que é digno é emporcalhado e já passámos todas as marcas.
Mas as realidades têm sempre uma lógica e esta também tem a sua. Tentemos mais uma modesta síntese nesta área. Em três sentidos apenas: pobreza e riqueza, desemprego e fome. Tudo em relação a um só país, Portugal.
Somos e não somos pobres. O País é rico em recursos naturais e o povo, como sempre, é trabalhador. Mas uma esmagadora maioria de portugueses é pobre e as elites, ricas. Crescem as fortunas e decrescem os salários. A economia afunda-se e o desemprego alastra.
O nosso maior problema é político. O nosso grande inimigo, o Capitalismo. A Igreja que nos interessa é a reformista, na parte em que a mudança política ainda é possível. O católico é um cidadão. A Igreja deve ser uma comunidade de homens livres.
Contas feitas, em 2011 havia 4,5 milhões de pobres em Portugal. Ou seja, quase metade da população portuguesa vivia com cerca de 420 euros por mês. Eram números já em si terríveis mas que, de qualquer modo, não expressavam a realidade nacional. Não fossem as transferências sociais (por exemplo, pensões, subsídios de desemprego, abonos de família,etc.) eles seriam bem mais degradantes. Dois anos decorridos, com os cortes orçamentais dos governos neocapitalistas que esmagam os mais pobres, a situação, necessariamente, piorou. Não basta que estatísticas oficiais afirmem o contrário. O povo português já não lhes dá crédito. A verdade está perante nós.
No mesmo período, e em sentido inverso, reforçou-se o movimento de concentração das riquezas e aumentou o número dos multimilionários com sede em Portugal. Entre 20l2 e 2013, e sem serem atingidos pela crise mundial, 870 milionários portugueses confessaram lucros de 10 mil milhões de dólares… E que ninguém ponha em dúvida que esses valores representam apenas a «ponta do iceberg». Há dinheiro a jorros nos negócios escuros da alta finança e nos mafiosos off-shores e swaps que por cá abundam!
O Patriarcado soma e segue. Quanto menos Estado Social houver, tanto mais lucram as misericórdias, as IPSS, as ONG e as fundações caritativas, as clínicas e colégios católicos privados, a banca e as seguradoras do bloco do Vaticano, etc. Quanto mais fome, melhor!
Dizia Ludwig von Mises, pioneiro do neoliberalismo, que «o fascismo e os movimentos semelhantes visando o estabelecimento de ditaduras, estão cheios das melhores intenções e a sua intervenção tem salvo a civilização europeia...».
Qualquer tentativa de casamento da Igreja com o neoliberalismo poderá, pois, parecer um bom negócio... Mas de certeza que o não é!