Crónica de um desastre anunciado
Durante muito tempo os fundos comunitários foram apresentados como compensação pelos impactos da integração de Portugal no mercado único da União Europeia e no euro e de diferentes «políticas comuns». Os grandes grupos económicos (maiores beneficiários dos fundos) ou os seus intermediários políticos no governo (e em alguns casos também na oposição) apresentaram esses supostos milhões como alavanca que permitiria ultrapassar a baixa produtividade do trabalho nas empresas portuguesas e a falta de competitividade da economia nacional, potenciar o investimento público e desenvolver o País. Nada mais falso. Foram muitos os milhões de euros que entraram, mas foram muitos mais os que saíram do País. Os fundos comunitários foram sobretudo um instrumento de promoção da abdicação nacional pelos partidos da política de direita, a aceitação da compensação pela perda da soberania nacional, ou seja, ficarem os trabalhadores e o povo português condenados às imposições da UE a troco da dependência de um prato de lentilhas. A situação tende a piorar porque não só as lentilhas vão sendo menos, como estão envenenadas. Vejamos.
O próximo Quadro Financeiro Plurianual (QFP – orçamento da UE para os próximos sete anos), volta a não ter dimensão, meios e prioridades políticas que contribuam efectivamente para ajudar a ultrapassar o fosso entre países e entre camadas sociais (o que exigiria pelo menos o dobro dos actuais montantes), e herda um défice de pelo menos 15 mil milhões de euros de promessas sem garantias da sua mobilização. Esta situação permite antever uma ainda maior chantagem dos (mal) ditos contribuintes líquidos – países mais ricos – que não só determinaram montantes e prioridades para o QFP, como utilizarão essas decisões (a par de instrumentos como o pacto de agressão ou as decisões no âmbito do Semestre Europeu) para tentar impor a países de economias mais frágeis e enfrentando uma grave recessão uma absoluta subserviência e um mando neocolonial.
Nem tudo são cortes no novo QFP. Na área da «segurança interna», os montantes são aumentados (+27%). Esta prioridade evidencia o carácter da UE e o seu papel enquanto mecanismo que subverte a soberania nacional nesta área, para controlar o amadurecimento da consciência dos trabalhadores e dos povos, procurando contrariar e esmagar a sua luta crescente contra a UE e a afirmação de alternativas democráticas e soberanas. Há portanto mais dinheiro para promover uma política cada vez mais repressiva e limitadora dos direitos e liberdades fundamentais. Há mais dinheiro para uma política contra os imigrantes, criminalizando-os e sujeitando-os à mais desumana exploração. Há mais dinheiro para reforçar uma política cúmplice dos escândalos de espionagem dos EUA ou da prisão ilegal, transferência e tortura de prisioneiros, no que ficou conhecido como o caso dos voos da CIA.
A inclusão do combate às alterações climáticas, como um dos principais objectivos, a par da promoção da eficiência energética, de infra-estruturas verdes e da «especialização» de regiões e países, cujos sectores produtivos são frágeis e se encontram em acelerado declínio, não só contribui para a mistificação dos problemas ambientais, dos seus responsáveis e das medidas necessárias, como perpetuam assimetrias de desenvolvimento, condenando vastas regiões de países como Portugal a um modelo de fornecedores de força de trabalho sem direitos e a uma espécie de reserva ecológica. Nestas implantarão com financiamento público os projectos das multinacionais que dominam as chamadas tecnologias e infra-estruturas verdes. Países como Portugal, que necessitam de aumentar a produção nacional, aumentar salários, manter e criar novos empregos com direitos, vêem-lhes negada a suposta solidariedade que adviria dos fundos, para além de lhes ser negado o seu direito ao desenvolvimento soberano, ou seja, de acordo com os direitos e aspirações do seu povo.
Invocando um «interesse europeu», são também promovidos investimentos para reforçar o mercado único da UE, nomeadamente em infra-estruturas das redes de transporte, energéticas e de telecomunicações, ou seja, canalizam-se milhares de milhões de euros de dinheiros públicos para as grandes potências da UE, para sectores cada vez mais dominados pelos monopólios e para projectos potenciadores dos seus lucros.
Nem a captação e distribuição de água e recolha e tratamento de resíduos lhes escapa. É invocada a necessidade de racionalização da captação e distribuição de água, não para garantir o seu acesso a preços sociais e a propriedade pública dos sistemas, mas com o objectivo claro de promover a sua privatização e tornar mais rentável o negócio das multinacionais deste sector.
Para os que se lembram dos alertas do PCP sobre o significado dos fundos comunitários, não há nesta crónica nada de misterioso ou de novo. Para os outros, esta pode ser a crónica de um desastre anunciado. A todos continuaremos a afirmar que a vontade, a determinação e a luta do povo poderá mudar o seu desenlace final.