Modernidade
«... Sei vitórias e derrotas
nesta luta que vamos vencer
se quem trabalha não se esgota
tem seu salário sempre a descer
olha o polícia olha o talher
olha o preço da vida a subir
mas quem mal faz por mal espere
o tirano fez janela p´ra fugir...»
«... atrás dos tempos vêm tempos
e outros tempos hão-de vir...»
Fausto, «Atrás dos tempos».
A ilusão de modernidade no Portugal dos nossos dias continua dominantemente ligada à Europa. Não a uma Europa realidade geográfica, económica, social e política, mas ao mito que paira por cima dessa realidade, a União Europeia (UE), um dogma que foi sendo alimentando com uma espécie de fabulação mirífica, desligada do dia-a-dia, dos meios, das relações de força (de classe), alheia às condições concretas da vida dos povos. Ai de quem ouse espreitar para dentro da redoma de vidro onde a classe dominante e a sua ideologia foram definindo Portugal e a sua relação com a União Europeia. Ai de quem questione o dogma e o carácter crescentemente neocolonial das relações estabelecidas no seu seio. Ai de quem questione a consagração do carácter antidemocrático da UE, promovido como aprofundamento da democracia. Quanto mais aguda e encarniçada se vai fazendo a luta dos povos, quanto mais se desenvolve o confronto entre exploradores e explorados, mais vivas se apresentam as contradições, mais agressiva se torna a reacção, mais apartada da realidade se faz a ideologia, mais se procura excluir os povos do conhecimento, da reflexão, da cultura, da política. Massacrados por uma exploração requentada e apresentada com áurea de modernidade, a reacção dos povos parece de despertar lento; ou melhor, é-nos apresentada como lenta. Ilusão. Puro ilusionismo incutido pelo interesse no conformismo, na desmobilização e na conformação da perspectiva transformadora dentro de um quadro que não vá além da indignação. Na aparente dormência da vida dos povos, a consciência nunca é um zero. As suas necessidades e anseios actuais são um produto relativo ao momento. Confrontando-se com uma realidade objectiva de exploração e de concentração da riqueza, de apropriação individual ou de grupo, por uma minoria, dos avanços e conquistas da imensa maioria, os povos reagem, resistem. A destruição da sua identidade nacional, cultural, incluindo do percurso que enforma o processo diferenciado do seu processo de libertação, as nações e os países, as suas vitórias e derrotas, transporta em si um potencial transformador que é necessário compreender para potenciar. Sim, são diferentes os processos sociais e políticos de luta e de emancipação que decorrem das condições específicas da luta em cada país, do grau de preparação, da maturidade e disponibilidade das massas. O contrário é um monismo que não cabe na definição das sociedades humanas e na sua relação com o meio ambiente em que elas se desenvolvem e a que são sujeitas.
A modernidade não pode pois ser um mito e muito menos um dogma, mas o ponto de partida da confrontação com o velho, para a construção do novo. O desenvolvimento das forças produtivas, permitido pelo avanço exponencial da ciência e da técnica, transformou aceleradamente a Europa, a UE e o Mundo. Transformou-nos a todos e cada um de nós. Transformou e aproximou os povos. O que nas condições presentes a ideologia dominante nos tenta convencer é de que temos de ser escravos no nosso País, ou ser o próprio País um escravo; que teremos de ser alguns países o quintal ou armazém de reserva onde a modernidade se serve ou deita fora os restos. Quem são afinal os interessados nesta modernidade? São homens e mulheres. Poucos, mais ou menos ricos, poderosos seguramente. Onde vivem? Nos castelos e palácios modernos, vigiados por câmaras e pelo aparato policial-militar; absorvidos na própria ganância, cuspindo ódio de classe; submersos no seu desiderato desumano. Quem são os seus intermediários? As grandes potências da UE, os partidos da política de direita em Portugal e todas as doninhas que difundem a modernidade associada à pobreza, à exploração e à escravidão. Como alcançar a libertação em relação à modernidade? Com organização e audácia. Reforçando e amplificando a luta. Rompendo o agrilhoado da ideologia dominante. Lutando com a alegria que tem quem conscientemente sabe ser superior a causa pela qual luta. Por fim daremos as boas-vindas aos novos tempos, além dos quais outros tempos hão-de vir!