O choque

Anabela Fino

Já conhecíamos muitos choques, desde o choque térmico ao choque de gerações, sem esquecer os carrinhos de choque, mas anteontem, dia 8, ficámos a conhecer mais um: o choque de expectativas. Falando na abertura do congresso da Ordem dos Economistas, em Lisboa, Passos Coelho conseguiu, de uma penada, não só dizer uma coisa e o seu contrário – o que não é novidade –, mas também dar mais umas machadadas nos princípios basilares do Estado de direito, acrescentando às habituais pressões sobre o Tribunal Constitucional o inusitado apelo – para não lhe chamar intimação – à observância da «lei da rolha».

Passos falava do Orçamento do Estado para 2014, documento que o Governo apresentará ao Parlamento na próxima semana. O mesmo documento, recorde-se, de que falou Paulo Portas há cerca de oito dias, dizendo que não traria mais medidas de «austeridade», mas tão só «pequenas e médias poupanças» cujo «desenho final» ainda estaria por decidir. Soube-se quase de seguida do inimaginável ataque às pensões de sobrevivência sobre o qual Portas nada disse. E eis que veio agora Passos falar da «influência que as expectativas desempenharam na composição recessiva que enfrentámos em 2012», para instar os economistas e comentadores que pululam nos órgãos de comunicação social a abster-se de fazer comentários ao que aí vem para penalizar ainda mais os portugueses, de forma a «não criar um choque de expectativas, que comprometeria os méritos e os sucessos» do programa de ajustamento financeiro.

De que méritos e sucessos fala o primeiro-ministro não se sabe; que medidas estão no OE, em concreto, também não; desconhece-se ainda onde foi Passos Coelho buscar a ideia de que os portugueses têm «expectativas» de menos sacrifícios a curto, médio e longo prazo, quando tudo, mas tudo, à sua volta se degrada de forma acelerada, das pensões às reformas, da saúde à educação, dos salários aos direitos consagrados na Constituição. O que se percebe, sem margem para dúvidas, é que os cortes de cerca de quatro mil milhões de euros – prometidos por Passos Coelho em carta enviada à troika em Maio e nunca explicada ao País – são de tal modo brutais que ao chefe do Executivo não ocorre melhor estratégia do que mandar calar os comentadores, não vão os «estúpidos» dos portugueses perceber a dimensão do novo esbulho que lhes está reservado.

Já se sabia que o Governo lida mal com a Constituição e que bem gostaria de ver imposto o Estado de excepção, se não de jus – o apoio de Cavaco não chegou a tanto – pelo menos de facto, coisa que o Tribunal Constitucional não pode admitir sem se descredibilizar. O que não se sabia – ou que alguns não queriam acreditar? – era que a deriva antidemocrática do Governo – e é da chamada democracia burguesa que aqui se trata – fosse tão longe, tão profunda que nem os seus próprios pares poupasse. Porque na verdade é disso que se trata, já que não são os defensores dos trabalhadores e do povo que têm via aberta nos órgãos de comunicação.

Depois de esconder, omitir e mentir nas eleições autárquicas sobre o que estava a ser preparado no OE, o Governo quer agora impor a censura, o «comer e calar» as medidas de desastre nacional que têm vindo e continuam a ser tomadas.

Dia 19, nas Pontes por Abril, será uma boa ocasião de mostrar que a verdadeira expectativa dos portugueses é correr com este Governo e com esta política.




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