Resultados da CDU nas autárquicas projectam-se no futuro

Vitória da confiança sobre o conformismo

Mais votos, mais maiorias e mais mandatos em câmaras municipais, assembleias municipais e assembleias de freguesia, assim se contabiliza a «inegável, expressiva e encorajadora vitória eleitoral» da CDU.

Populações reconhecem a qualidade do trabalho da CDU nas autarquias

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Foi essa leitura que o deputado comunista António Filipe levou à sessão plenária de quarta-feira da passada semana, 2, a primeira realizada depois das autárquicas e ainda sob os efeitos do abalo telúrico que estas constituíram para os partidos da coligação governamental.

Na declaração política proferida em nome da sua bancada o deputado comunista atribuiu grande significado ao facto de a CDU ser a única força política que, no quadro de um forte crescimento da abstenção (por «causas objectivas como a emigração e por causas subjectivas como o desespero social e o alheamento da vida política»), conseguiu aumentar a sua votação, quer em número absoluto de votos quer na sua expressão percentual.

Não menos significativo, no entender de António Filipe, é a circunstância de a CDU ser a única força política que, com os seus resultados, contrariou «o perigoso discurso anti-partidos que contaminou este processo eleitoral, como se os cidadãos que se candidatam a órgão autárquicos integrados em candidaturas de partidos ou coligações, com ou sem filiação partidária, sofressem de alguma inferioridade política, cívica ou moral relativamente a cidadãos que se candidatam em listas de grupos de cidadãos, imprópria e capciosamente designadas de independentes».

Para o Grupo Parlamentar do PCP resulta ainda claro que destas eleições saiu reforçado o reconhecimento quanto à qualidade da intervenção da CDU nas autarquias – «um percurso de trabalho, honestidade e competência, de dedicação à defesa dos interesses das populações e da causa pública» –, reconhecimento que é extensivo à sua «intervenção coerente e determinada na defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo e na resistência e combate à política de direita».

Condenação

A reter como elemento relevante deste acto eleitoral fica, por outro lado, o «indisfarçável e clamoroso desastre eleitoral» do PSD e do CDS-PP, traduzido na perda de mais de dez pontos percentuais, derrota essa que traduz em si mesma uma clara condenação da política que está a «arrastar o País para a ruína e a condenar os portugueses ao empobrecimento».

«Não é o facto de o CDS agitar triunfalmente um “penta”, conseguido à custa de derrotas do PSD, de fingir que nem sequer conhece os seus parceiros de coligação em Sintra ou em Lisboa, ou de se enfeitar com a vitória de Rui Moreira no Porto (algo que bem conhecidas personalidades do PSD também poderiam fazer), que permite disfarçar que os parceiros de coligação se afundaram no mesmo barco», observou António Filipe, desmontando assim manobras de diversão cujo único intuito é iludir o real significado das autárquicas de 29 de Setembro, ou seja, por um lado, o isolamento social e político dos partidos do Governo, e, por outro lado, o reforço significativo da CDU, que representou a «vitória da confiança e da esperança sobre a desilusão e o conformismo».

 

Cantar de galo

Sem deixar de reconhecer «os bons resultados da CDU», no rescaldo eleitoral o PS fez tudo para ampliar artificialmente a sua prestação, valorizando itens, ignorando outros. Isso ficou logo patente na interpelação de Ricardo Rodrigues a António Filipe em que falou de «superação do PS a si próprio», insistindo na tónica de que foi o «partido que obteve maior número de câmaras».

O mesmo tom esteve presente na declaração política do seu líder parlamentar, Carlos Zorrinho, que cantou de galo com a conquista de 150 câmaras, de mais mandatos e mais presidências.

Ora se quanto ao resultado da CDU «não há duas opiniões», já sobre o do PS «há opiniões diversas», assinalou António Filipe, em resposta a Ricardo Rodrigues.

O deputado comunista expressou mesmo a sua dúvida de que os eleitores, depois de terem imposto uma derrota nas legislativas, tenham feito as pazes com o PS.

É que, referiu, o PS no conjunto das assembleias municipais passou de 36,77% nas eleições anteriores para 34,95% , ou seja perdeu 1,72% e perdeu 282 234 votos.

E no que se refere às assembleias municipais perdeu 198 eleitos directos.

Sendo verdade que o PS teve mais maiorias nas câmaras municipais, o número de vereadores ficou idêntico ao de 2009. Mas o que é facto é que perdeu posições, realçou António Filipe, dando como exemplo o menor número de votos e de percentagem.

 

Trambolhão

Com as autárquicas a dominar as declarações políticas de todos os partidos (só o BE as ignorou e preferiu falar do caso Rui Machete), foi notório no debate o esforço do PSD para escamotear qualquer leitura nacional das eleições. «Foram eleições locais», «os eleitores não foram chamados a escolher nova AR ou novo Governo», argumentou o deputado laranja Sérgio Humberto, na tentativa vã de limitar os estragos da hecatombe eleitoral que atingira o seu partido e as coligações com o seu parceiro de Governo.

O deputado comunista João Oliveira teve de lhe lembrar que além de «ficar a dever pouco à coerência» – comparou-a com o que foi dito pelo PSD nas autárquicas de 2001 perdidas pelo PS, então no Governo, – aquela intervenção negava essa evidência que foi a clamorosa derrota dos partidos do Governo, «também por causa daquilo que foram as políticas deste», nomeadamente a política de destruição das freguesias, a política de promoção do desemprego e da precariedade, de liquidação de serviços de saúde, da Escola Pública, degradação

das condições de vida dos portugueses e por aí fora.

Salientado por João Oliveira como elemento de reflexão foi ainda o facto de os três partidos que subscreveram o pacto com a troika terem perdido mais de 800 mil votos, o que em sua opinião é consequência não só da «tradução local da opção dos portugueses» mas também da penalização de que são alvo por serem «responsáveis pelo buraco económico e social para que o País está a ser arrastado».

 

Avançar para melhor servir

António Filipe recordou no Parlamento que a CDU aumentou o número de votos em termos absolutos e relativos, aproximando-se, no que toca às assembleias municipais, dos 600 000 votos, cerca de 12% do total de votos expressos. Aumentou em 96 o número de eleitos directos em assembleias municipais, em 39 o número de vereadores em câmaras e passou de 28 para 34 presidências de câmaras municipais.

A CDU obteve ainda a presidência simultânea das câmaras de três capitais de distrito (Setúbal, Évora e Beja), o que não acontecia desde 1981, há 31 anos. Realce merece também a obtenção da maioria da Área Metropolitana de Lisboa, com reforço muito significativo das suas posições na Península de Setúbal e com a recuperação da presidência da Câmara Municipal de Loures. A CDU assegura representação nos executivos municipais em 14 dos 20 distritos e regiões autónomas.

 

 



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