O dito e as calças

Jorge Cordeiro

Entre o meio desolados e a outra metade desorientados assim varia, em analistas e governantes, o sentimento perante a dúvida nutrida pelo desaire maior que terá constituído, depois de um efémero mês e meio de vida, o falhanço dessa inovação introduzida pelo governo na «comunicação com o País» – que sob o moderno toque dado pelo anglicismo do termo se designou por briefings, mas que mais rude e assertivamente se poderia traduzir por arregimentamento da opinião publicada e editada.

Para os que angustiadamente procuram, entre manuais de sociologia e teorias comunicacionais, elaboradas explicações sobre as razões de tal falhanço aqui se desvenda, poupando perdas de tempo aos que se moem em tal exercício, o que a coisa tem de mais simples. Recorrendo ao que a sabedoria popular tem de melhor e vantajoso se perceberá aquilo que o mortal dos comuns já percebera: o problema está no dito e não nas calças! O problema não está nem no formato da coisa, que devendo ser breve como o termo em inglês pressuporia, se teimava em transformar num arrastado e penoso desfiar de justificações; nem no diligente empenho de um tal Lomba, que de tão esforçado bajulador da política de direita se viu recompensado com a passagem de colunista de um jornal a secretário de Estado, desmentido bastante para os detractores que insinuam que o grande capital não recompensa o melhor da sua criadagem; nem mesmo na alegada falta de jeito que o jornalista-governante patenteara ao ser-lhe exigido passar da cómoda posição de quem debitava impunemente umas doses de prosa reaccionária e fascizante, sem que a outros fosse dada a possibilidade de contrapor, para a exigente posição de dizer duas coisas direitas que manifestamente provou não ser capaz.

Não, o problema não esteve no vendedor mas sim no que se pretendia vender. É que a crua realidade económica e social, o patenteado atoleiro político ou o caudal de escândalos em que este Governo e a sua política estão envolvidos, não daria, mesmo pela boca do mais hábil comunicador, para fazer crer que o País segue no melhor dos rumos, pela mão de um governo que se diz credível e onde moraria gente séria. Tarefa tão impossível que só pode causar espanto o tempo de mês e meio que a farsa durou.




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