O mito da Caridade cristã

Jorge Messias

«O aumento do preço dos alimentos deve-se, sobretudo, à especulação do capital financeiro de pensões e fundos de alto risco. Após o estoiro da bolha especulativa do sector imobiliário americano, a cotação dos produtos agrícolas tornou-se referência obrigatória nos principais mercados do mundo... Em 2007, por exemplo, os contratos especulativos da Bolsa de Chicago corresponderam a totais de 7 biliões de toneladas de milho, 4 biliões de soja e 3 biliões de trigo quando, nas colheitas realmente conseguidas nesse ano, se apuraram apenas 780 milhões, 220 milhões e 606 milhões de mercadorias. Só o mercado futuro da soja chegou a negociar nesse período, 22 hipotéticas searas» (Karen C. Karen, «Biodiesel e segurança alimentar»).

«O terceiro sector tem a função de minimizar os impactos da oposição às reformas neoliberais. Quando os regimes neoliberais, em fase de instalação, transferiram ricos patrimónios do Estado para o sector privado, as ONG não se aliaram aos sindicatos. Mas quando os governos neoliberais centrais devastaram as comunidades e estimularam a dívida externa, promovendo a pauperização, nem por isso as ONG deixaram de receber do Estado crescente financiamento para os seus projectos alternativos» (James Petras, «Neoliberalismo...»).

«Numa sociedade economicamente muito desenvolvida, uma rede de instituições destinadas a garantir a segurança social pode contribuir para tornar efectivo o destino comum dos bens... Devem promover-se os serviços familiares e sociais e garantir-se, ao organizarem-se estas instituições, que os cidadãos não assumam em relação à sociedade uma atitude de passividade ou de irresponsabilidade ou se recusem a servir os outros...» (Concílio Vaticano II, «Gaudium et Spes», 1964).

Se, nos tempos idos da Teologia da Libertação, os objectivos a alcançar pelo Terceiro Sector da Igreja apontavam para um limitado sentido do poder, a realidade mostrou-se depois bem diferente. Na década de 60 do século XX, o Vaticano viu-se obrigado a sucessivas manobras estratégicas que conduziram o alto clero às adaptações da doutrina exigidas pelos sucessos e insucessos do Socialismo laico. Datam dessa altura imprevistas novidades na análise social, nomeadamente nos planos do combate à pobreza e à fome, ao desemprego, à injusta repartição da riqueza, à universalização dos sistemas estatais de segurança social, saúde, ensino, racismo, integração da mulher, direitos da criança,etc., etc.

Assim, se até à segunda metade do século XX o Vaticano aceitou desempenhar o papel odioso de pilar central dos regimes absolutos e imperialistas, a rebeldia dos teólogos da libertação impôs a nova ideia de que a Igreja não serve só para servir o rei e para dele se servir. Houve de reconhecer-se, finalmente, a existência de sociedades classistas, a exploração dos pobres pelos ricos, a injusta repartição da riqueza e a função social do Estado. Entretanto, o capitalismo conseguiu, em parte, superar a crise dos anos sessenta. Mudaram os crentes mas o clero não mudou. E o Concílio Vaticano II foi a «marca de água» dessa sensacional mas nunca consolidada mudança. Desde então, a Igreja tão depressa é «santa» (conciliatória, compreensiva, altruísta, justa ) como «maquiavélica» (dúplice, agiota, intriguista, escandalosa, capaz dos mais tenebrosos crimes).

Agora, a derrocada capitalista é geral. Os povos caminham para a miséria e nada pode disfarçar esta horrível realidade. Por isso o Vaticano, em estado de desespero, tenta o impossível: em plena era do conhecimento e já incapaz de ocultar completamente a realidade, procura manter o mito central do seu passado histórico ultraconservador: fingir ser aquilo que não é.

Assim entronca esta síntese no tema central que nos tem vindo a ocupar – o lugar da hierarquia religiosa nas técnicas da fome e da produção da miséria, da desigualdade social e da redução drástica das liberdades democráticas inscritas no agrobusiness.

Escreveu, no século XVI, William Shakespeare: «O meu optimismo reside na certeza de que esta civilização se vai desmoronar. O meu pessimismo teme aquilo que ela ainda possa fazer para nos arrastar na sua queda... Que época terrível esta em que idiotas dirigem multidões de cegos...».

A tinta com que estes pensamentos foram registados, permanece fresca.



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