O furor parkinsoniano da fruição artística
A exposição Nothing to Declare, uma investigação sobre a globalização da arte e seus circuitos de 1989 até aos dias de hoje, realizada por Hans Belting e Andrea Buddensteg é um elemento nuclear para se entender a importância central dos circuitos do comércio das obras de arte até se inscreverem num segmento do comércio dos artigos de luxo. É um conjunto de dados e números detalhadíssimos sobre a circulação das obras de arte cujo conteúdo e ideias vertidas merecem reflexão. Apresenta-se como uma exposição que está actualmente em Berlim, terá circulação internacional.
Há um sector que ultrapassa o seu carácter documental e informativo para apresentar um conjunto de obras apresentadas como periféricas feitas por artistas originários de países periféricos que já entraram nos circuitos mundiais. Na realidade artistas que são expressão de um novo grupo de artistas que, sem grande novidade, procura notoriedade deixando embasbacada a malta que, tentando libertar-se das redes esburacadas do pós-modernismo, se enreda numa dita nova cultura pós-colonial que proporciona «momentos únicos de fruição artística», como afirma António Pinto Ribeiro, em texto dedicado a esse evento, no Ypsilon de dia 7. Dos exemplos extraídos desse artigo soa o alarme pelo relevo que o seu autor lhes dá, visivelmente para não se atrasar e ficar na linha da frente do estado do mundo das artes, estado do mundo que se joga noutros tabuleiros. É nítida a correria dessa gente para não perderam o posto que arduamente obtiveram entre o baixo clero pós-moderno, sempre ao serviço da sobrevivência do pensamento dominante. Há que sublinhar o afã dessa gente em pintar os cabelos grisalhos do pensamento dominante, que faria a maior das invejas a Aschenbach, da Morte em Veneza do Visconti.
O extraordinário é a fruição artística que essas obras lhes provocam e que os faz considerar que «esses elementos explicam o que há de mais sólido nesta circulação imparável dos números, capitais e dados. São a suspensão do tempo para o mínimo de fruição artística».
Uma das obras é da tailandesa Araya Rasdjjarnrearnscook, de 2008, intitulada Dow Song Duang, em que um grupo de aldeãos tailandeses sentados numa clareira olha para um quadro de Manet. O que maravilha o mundo de frequentadores dos circuitos das artes é o ar de estranheza patética que os aldeões necessariamente exibem. Não passa por aquelas meninges que se em vez de Manet fosse VanGogh, o das Botas Campesinas, O Nascimento do Mundo de Courbet ou a Gioconda do Da Vinci, o resultado seria o mesmo, ou praticamente o mesmo. As variações seriam mínimas, não significativas, o que lhes deve provocar as maiores perplexidades, tal como se o nome da obra fosse em tailandês.
Como será possível continuarem sentados a olhar, quase sem pestanejar, aquelas maravilhas que valem milhões de euros, milhares de milhões de tijelas de arroz de que eles só comerão durante toda a vida umas dezenas. Depois vão trabalhar, suportando regimes violentíssimos, abandonando o quadro de Manet, sem perceberem a transcendência de que deveriam ficar possuídos e que os devia fazer arrotear a terra com requintes antes nunca vistos, mesmo que os resultados das sementeiras se ressentissem dos cuidados estéticos.
Outra obra é do turco Halil Altindere: tem qualidades similares se não mesmo mais refinadas. Recorre à mãe, uma anciã turca que não sabe inglês e lê presume-se que em turco o catálogo do grupo Fluxus. Também tem nome em inglês que é, como se sabe, um dos traços distintivos das periferias em geral e das artes periféricas em particular. A ambivalência dessa obra, My mother likes Fluxus, deve ser a subtileza estética de tanto a senhora como os auditores gostarem loucamente dos Fluxus sem perceberem patavina das largas, intensas e profundas fundações teóricas do grupo, ela por a «filosofia» do grupo lhe ser estranha, os auditores por não perceberem o turcomano falado pela anciã. Se ela ler em inglês o resultado ainda deve ser mais complexo. Ninguém percebe nada de nada. A finalizar a outra obra citada é da marroquina Yto Barrada que ostenta o título de artista do ano 2011 do Deutch Bank, uma variante do artista oficial do Continente, Tony Carreira. Artistas distinguidos pela finança têm outro toque, não é propriamente a das alfaces da quinta do Belmiro no Terreiro do Paço. Yto Barrada apresenta um mapa-mundo em que os continentes estão recortados em placas de madeira pintada que se movem por ranhuras chocando uns com os outros sem os perigos da colisão das placas tectónicas. Chama a esse jogo infantil, cujas regras explica detalhadamente para não ficarmos estúpidos, novas ideias de migração. A Arte na periferia a entrar pela porta grande do país das maravilhas globais. A burguesia entediada com o seu próprio tédio diverte-se orientada pelos Novos Testamentos dos clérigos do gosto.