Neoliberalismo, agronegócio e contra-revolução...
«Apesar da economia globalizada ser definida como multipolar, o bloco americano liderado pelos EUA, realiza grande parte dos seus negócios na América Latina; o
grupo asiático, comandado pelo Japão, efectua mais de 50% dos seus investimentos no Leste e Sudeste da Ásia; e a União Europeia concentra dois terços da sua actuação financeira no Leste europeu. Portanto, pode constatar-se que a economia da globalização é, com efeito, tripolar. O poder económico está nas mãos dos países que representam as sete maiores economias do mundo» (Silvia Giambatiani, «Os pólos do Poder na economia globalizada»).
«No Brasil e nos países pobres, a orientação do imperialismo agroalimentar é basicamente a seguinte: por um lado, garante o domínio das transnacionais sobre toda a rede produtiva e comercial; por outro lado, impõe uma divisão de trabalho onde as economias pobres servem como matéria-prima da exportação e compram produtos industrializados importados, gerando uma relação imperialista colonial entre países desenvolvidos e países pobres» (Instituto Latino-Americano, 2013).
«Vivemos sob o império da teologia liberal do mercado, sem regras e sem controlo político eficaz. O poder emancipou-se da política... Por isso, em todas as tuas acções defenderás a prioridade da economia de mercado sobre a ética e a política» (Juan José Tamayo, «Ética e Utopia», Abril 2013).
Durante vinte ou trinta anos, o milagre brasileiro foi uma realidade. A agropecuária e a agro-indústria, em geral, atraíram os investimentos estrangeiros. Do pé para a mão, o Brasil transformou-se no maior produtor e exportador mundial de soja, açúcar, café, carne, matéria-primas agrícolas, sementes e adubos, etc. Tudo isto a preços tão competitivos que, em certos casos, chegavam a diferenças de 30%. Caíram as barreiras alfandegárias. Lula jogou com os interesses das transnacionais e usou todos os trunfos de que dispunha: inesgotáveis lotes de terras, mão-de-obra barata e qualificada, gigantescos exércitos de desempregados, climas diversificados e redes impressionantes de multinacionais financeiras, bancos, seguradoras e offshores.
Simultaneamente, os neoliberais de máscara socialista e os especuladores populistas das bolsas inspiraram as simpatias de um povo martirizado mas extremamente ligado ao ideário dos camponeses sem terra e de uma nação orgulhosa norteada por princípios de justiça social, paz, progresso e liberdade. Mas o povo brasileiro errou no momento da escolha.
Encadeados pelas promessas de uma vida fácil, os brasileiros entregaram os destinos nacionais aos lacaios do dinheiro. Fugiram dos campos para a cidade, copiaram o modelo «made in USA», sendo ricos em recursos, endividaram-se. E aceitaram recompor o latifúndio, fragilizando a luta tradicional pela mais justa distribuição da riqueza. Depois, a grande crise impôs-se.
Ao traçarmos este esboço da experiência histórica de um povo irmão do nosso, fazemo-lo com o à-vontade de quem sabe que algo de semelhante se passa em Portugal. O que vemos nas patéticas tentativas dos iluminados em gerirem a crise, sem nada de essencial mudarem aos seus negócios e às suas alianças, revela o estrebuchar do capitalismo como sistema alternativo do poder. Mas a batalha final ainda não foi travada.
Regressando ao tema inicial do agronegócio como factor da concentração da riqueza de alguns e da comercialização da pobreza e da fome, tanto no Brasil como na América Latina ou em Portugal e no Terceiro Mundo, devem também merecer atenção dois aspectos complementares.
O primeiro, é que o sucesso do imperialismo dos monopólios implica a destruição final da Natureza e da Vida. Basta ver-se como os países mais ricos e o Vaticano apoiam e fomentam a concentração da riqueza e da chefia política e financeira mundial.
O segundo aspecto complementar diz respeito ao modo como se articulam entre si as indústrias da fome e a caridade cristã. Ou por outras palavras: como a filantropia vive da fome.