Afinal havia outra

Nuno Gomes dos Santos

De vez em quando lembro-me daquela máxima que diz «cantas bem mas não me encantas». Então quando ouço, ou vejo transcrito nos jornais, as magníficas dissertações dos empoleirados ministros, secretários de Estado, sub-secretários de Estado, porta-vozes das bancadas pêéssedês ou cêdêésses e demais membros da tribo, incluindo no consórcio destes «cidadões» a cavacal triste figura, o rifão surge-me lesto e impositivo.

A verdade é que uma pessoa tem o direito de se sentir farta da mesma música, por diferentes que pretendam ser as letras das cantigas. Ele é o gaspárico trauteio do êxito que a austeridade tem dado aos portugueses, o entusiástico gargarejo do senhor Pereira aplaudindo a criação de meia dúzia de novas empresas e, por acaso, esquecendo, em contraponto, a falência de muitíssimas dúzias delas, a enorme preocupação do rapaz Aníbal pelos recursos agrícolas e marítimos que, há uns anos, apagou do mapa pagando para não se produzir e «afundando» os barcos que demandavam sardinhas e peixe mais grosso, num jogo de batalha naval em que os barcos foram quase todos ao fundo com o homem a aplaudir vários tiros em barcos de dois e três canos (não consta que o alvo tivesse submarinos na mira, Portas para que te quero...).

Vai daí, vem o Crato a dizer que os professores são uns malandros, coitadinhas das criancinhas, greve sim senhor mas só quando der jeito, aqui d'el rei que o Mário Nogueira é um perigoso terrorista e os outros sindicatos fora da Fenprof morderam o isco e adoptaram atitudes inflexíveis e de pura e dura extrema esquerda, tal o veneno que lhes foi administrado, socorro, help, ou 3,1416 caso os ouvidos fossem de professores de português, de inglês ou de matemática.

Acontece que esses ouvidos ficaram surdos às patéticas e falaciosas orações do ministro. O homem apenas enriqueceu o léxico português, dado que, a partir de agora, quando se comete um erro de palmatória, passaremos a dizer que foi um erro crato.

Então não é que, com metade dos alunos a não poder ter feito o exame de português, teria de haver uma solução para que todos os interessados prestassem provas, de modo a que a equidade fosse garantida (ficando por saber se o foi)?

Então não é que era impensável os professores aceitarem a crata proposta de se comprometerem a não fazer mais greves durante éne tempo?

Então não é que o espertíssimo ministro já poderia, assim, adiar a data do exame de português? Ou seja: se só fizerem greve quando eu deixar eu mudo a data do exame!

Homem por certo dado a canções de texto, Nuno Crato teve essa brilhante (e inqualificável) ideia depois de ouvir, mal percebendo, a Mónica Sintra cantar «afinal havia outra»... data?



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