A desordem
A desordem instalou-se no topo do Estado, ao ponto de nada e ninguém já inspirar confiança.
Em contrapeso, no topo do Estado também já não se confia em ninguém, nomeadamente no povo a governar e a presidir. Este facto tornou-se evidente na recente medida do Governo passista a ordenar o reforço da segurança pessoal do Presidente da República, do primeiro-ministro e de todos os membros do Governo.
Assim sendo, as forças de segurança ainda acabam assoberbadas a mudar cueiros aos governantes, o que é capaz de se tornar problemático para a continuação desta política de ruína acelerada: quando quiser travar os protestos na rua à bastonada (neste caminho, é o que vai acontecer), o Governo arrisca-se a não ter polícias que cheguem para o «serviço».
A medida securitária exibe uma franqueza: declara que pretende proteger todas estes governantes de manifestações de protesto e de «eventuais atentados».
Descontemos o desconchavo dos «atentados» (o último, visando altos dirigentes, foi contra Salazar, em 1937, que saiu incólume da bomba e, corajoso como era, nunca mais sairia à rua, nos longos 33 anos que se seguiram da sua governação fascista) e retenhamos a função efectiva deste «reforço da segurança»: pôr todos os governantes, e até o PR, ao abrigo de protestos quando saem a público.
Trata-se de uma prevenção e de uma assunção – a de que o País perdeu a confiança e o respeito pelos seus governantes. O Governo sabe-o e reconhece-o explicitamente, o que não acontece por acaso: na sua actual «linha de acção», o Executivo já não luta pela sobrevivência – que sabe perdida –, mas para levar o mais longe possível o seu projecto revanchista de desmantelar o Estado social construído no Portugal de Abril.
A «linha» é programática e visa a insegurança e o medo, que o Governo espalha meticulosamente sobre os que estão sob a a sua alçada: os funcionários públicos, os pensionistas e os reformados. É chocante o que Passos Coelho e C.ª têm imposto a milhões de pessoas em matéria de instabilidade salarial, não havendo actualmente ninguém no funcionalismo público, no activo ou na reforma, que saiba com o que pode contar, seja no salário, reforma ou pensão a receber ao fim do mês, seja no próprio posto de trabalho, agora ameaçado com despedimentos em massa a coberto da «mobilidade especial» e da «requalificação», vocabulário de uma impudência sinistra e provocatória.
Aliás, em matéria de provocação o Governo tem requintado, como por exemplo na ilegal e estúpida ideia, anunciada pelo próprio chanceler Coelho, de se recusar o pagamento dos subsídios de férias em Junho – impedindo, além do mais, que circule no mercado interno (que bem precisado está) mais de 600 milhões de euros.
O Governo actua sem peias legais e constitucionais, torpedeando a torto e a direito a ordem democrática.
Os fascistas espanhóis gritavam Viva la Muerte! Passos e C.ª já dão vivas à desordem.