O incómodo
Com o seu congresso marcado para o primeiro fim-de-semana de Julho o CDS fez saber ao País que os centristas andam incomodados. O anúncio foi feito via moção liderada por Pires de Lima – que apoia a recondução de Paulo Portas na liderança do partido –, cuja ostenta um título a todos os títulos notável: «Dar Prioridade à Economia». É o que se pode chamar de verdadeiro desarrincanso para quem partilha as responsabilidades da governação, directa ou indirectamente, há mais de três décadas e que nos últimos dois anos tem andado a assinar de cruz, quando não com basta produção de teorias justificativas, de que a mais repetida foi certamente a da «inevitabilidade», todas as medidas que paulatinamente têm vindo a destruir a economia do País.
Poder-se-ia pensar que isso são águas passadas, atendendo ao alegado incómodo do CDS com o «rumo da evolução da economia e do desemprego», mas do que já veio a público sobre a dita moção não parece ser o caso. Hábil a apontar o óbvio mas sem nunca questionar a contradição insanável entre as palavras e os actos por que se pautam os seus correligionários, Pires de Lima valoriza na sua moção a «estabilidade política» do Governo como um «bem essencial» (ainda que demolidora da economia), ao mesmo tempo que reclama pelo «espírito de negociação» que deve presidir às relações com o PSD e a troika. E se não preside, como se infere, que culpa tem o CDS? Nenhuma, responde o texto do presidente do Conselho Nacional, sacudindo com vigor a água do capote: o CDS teve 12% dos votos e não lhe compete «liderar o Governo». E para que não restem dúvidas ainda se sublinha, lavando as mãos como Pilatos, que nem tal responsabilidade pode ser assacada aos centristas.
Descartado o ónus, canaliza-se o esforço para o populismo, traduzido grosso modo numa proposta de «calendário para a anulação dos cortes temporários», que dos definitivos não é bom falar, paz à sua alma.
O pano de fundo, já se disse, é a «profunda incomodidade» do CDS com o rumo da economia. Veja-se o significado de incómodo e logo se percebe como o partido encara a ruína do País e dos portugueses: é um estorvo, um embaraço, um inconveniente, uma canseira. Numa palavra... uma maçada.