A Festa
«Já chegou o 10 de Junho», como há uns anos cantou Carlos Tê pela voz de Rui Veloso numa canção que, diz-se, terá irritado Mário Soares, contudo pouco irritável sobretudo no que diz respeito a irreverências. Chegou, pois, o 10 de Junho, isto é, chegou a Festa Nacional, o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades que em tempos foi, como se sabe, o dia da Raça, e agora, em certos momentos, parece tocado pela tentação de voltar a sê-lo. Desta vez a festa foi em Elvas com extensa e adequada cobertura televisiva da RTP1 e dos canais portugueses especialmente votados à informação. Assim, os telespectadores portugueses tiveram a possibilidade de assistir não apenas aos discursos do senhor Presidente, sempre interessantes, e de Silva Peneda, que este ano presidiu à Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, mas também e talvez sobretudo ao desfile de diversos elementos das nossas Forças Armadas, o que para muitos pode ter sido o momento mais saboroso da reportagem pois, como é sabido, os desfiles militares sempre são espectáculo apetecível para a generalidade dos cidadãos, talvez por serem gratuitos e vistosos, talvez também por tocarem na corda patriótica da nossa sensibilidade. Por mim, se me é permitida uma nota pessoal, direi que fiquei especialmente impressionado com o estilo de marcha adoptado por muitas das unidades, se não por quase todas, que mal ou bem, decerto mal, me recorda o «passo de ganso» que muitas décadas atrás só havia sido adoptado pelas tropas alemãs e se tornara uma sua característica identificativa. É um passo que sugere força, determinação, poder intimidatório, e por isso muito bem se concilia com as funções específicas da instituição militar. Mas também gostei de assistir à imposição das condecorações, tendo julgado notar, entre outras coisas, a relativa abundância de dirigentes da UGT que foram condecorados e a ausência de qualquer agraciado com vínculo à CGTP. Ainda nessa mesma fase da Festa, achei significativa a condecoração daquele senhor historiador cujas simpatias pelo falecido doutor Salazar me parecem indisfarçáveis, se me engano peço desculpa. Até talvez seja uma pena que o inspector Rosa Casaca já tenha falecido: se ele tivesse durado mais algum tempo, ainda podia levar uma fitinha.
«(…) Que nunca os admirados (…)»
O único reparo que me ocorre quanto à Festa é que me parece ter ficado Camões um tanto esquecido: afinal, se não lhe tivesse acontecido morrer a 10 de Junho de 1580 nem sequer havia agora festa neste dia, e contudo não dei por que alguém o tenha nomeado. Com razão ou sem ela, acho sempre muito bem que por esta altura sejam lembrados alguns dos seus versos, não tanto os belíssimos da sua obra lírica quanto uns tantos de «Os Lusíadas» muito especialmente adequados à data: aqueles em que nos fala da «austera, apagada e vil tristeza» em que alguns afundaram a Pátria, os que denunciam que «leis a favor do rei se estabelecem, / as a favor do povo só perecem» e «ou dai na paz as leis iguais, constantes, / que aos grandes não dem o dos pequenos». Talvez mais que todos, neste momento, os primeiros quatro versos de uma das últimas estâncias, a 152.ª.: «Fazei, Senhor, que nunca os admirados / Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses, /Possam dizer que são para mandados, / Mais que para mandar, os Portugueses». Bem sei que o senhor professor Cavaco Silva não é D. Sebastião (o que aliás nos salva da eventualidade de, um dia, mais tarde, poder reaparecer numa manhã de nevoeiro), mas ainda assim as palavras de Luís Vaz surgem com uma actualidade e uma razão capazes de nos fazerem pensar. É claro que nem tudo é perene no que um homem escreve, mas há sentimentos que ficam ao longo do tempo, capazes de galgarem séculos. Por exemplo especialmente adequado a este 10 de Junho de 2013, a solidariedade com «os pequenos» que as leis agridem e a recusa da subserviência perante os estrangeiros. Por isso bom seria que o senhor Presidente, que decerto já sabe agora quantos cantos tem «Os Lusíadas», se disponha a ler, em algum momento de lazer finalmente encontrado, pelo menos os versos mais compatíveis com o tempo histórico que vivemos hoje.