«A Imensa Boca Desta Angústia»
O último livro de Urbano Tavares Rodrigues
A obra de Urbano Tavares Rodrigues desde meados do século passado até hoje tem sido, assim como ele próprio, um testemunho corajoso e interventivo nas circunstâncias da própria sociedade: os seus livros além da sua beleza de escrita precisa e poética são, através das suas personagens, um protesto e uma denúncia da opressão e da injustiça.
São livros em que o escritor claramente faz opção e ao mesmo tempo perscruta o ser humano: as suas dores, os seus anseios, as suas frustrações, as suas lutas, as suas abnegações.
Em cada romance e novela ou conto Urbano Tavares Rodrigues reinventa a sua própria criatividade: desde o «Bastardos ao Sol» onde descreve o Alentejo interior, oprimido pela ideologia e a mentalidade mais conservadora até à «A Noite Roxa» de «Escombros» uma emblemática e das mais representativas novelas da contemporaneidade do pós guerra ou o «Contos de Solidão» onde, sobretudo, a condição humana, com as suas contradições e abnegações, se revela e se descreve ou o «Eterno Efémero» um romance onde o ser humano é interrogado e perscrutado por um inspector da polícia.
Uma obra que percorre o tempo com as suas personagens dando-nos toda uma literatura que nos interpela na sua imensa complexidade de sentimentos, situações e interrogações.
E nesta sua vasta literatura transita Urbano Tavares Rodrigues toda uma gama de estilos: desde a influência do neo-realismo até ao fantástico e onírico passando essencialmente pelo existencialismo, de livro para livro Urbano Tavares Rodrigues descobre novos caminhos para a sua escrita, reinventa-a.
Assim a sua última obra «A Imensa Boca Desta Angústia» é também ela uma reinvenção de Urbano Tavares Rodrigues na sua escrita: neste livro a liberdade da palavra e do texto são reassumidas como me parece que nunca antes o foram ou se o foram seria de maneira diferente – ao lermos estes contos uns mais longos, outros como que uma circunstância, uma observação, mas sempre uma escrita adulta, madura e precisa, poética, sentimo-nos viajar nos anos e no espaço com as próprias personagens: quase em meia dúzia de linhas Urbano Tavares Rodrigues descreve-nos a vida com seus dramas, aventuras e tragédias.
Com este livro como que percorremos o mundo com os respectivos personagens.
No primeiro destes contos, o mais longo, que dá o nome ao livro, é Euclides Portocarrero que nos leva por esta Europa fora: Paris, Zurique, Amesterdão. Depois Médio Oriente: Beirute. Depois todo o largo mundo: China, Japão, Índia, Austrália e por fim Colômbia e as místicas FARC onde, corajosamente, Euclides assume a sua opção de um mundo mais justo e generoso.
E sempre novas personagens femininas surgem em cada país, em cada cidade, dadivosas e entregando-se ao amor, diria quase misericordiosamente como Madalenas.
E é esta liberdade, este percorrer o espaço e o tempo no livro que é um dos seus encantos, pois ao lê-lo nos dá a sensação da variedade da terra e da sua amplidão.
Assim como as personagens e as situações que se sucedem: Florêncio, Sálvio, Idálio, etc… − nos dão uma miscelânea de pessoas, de sentimentos que se entrecruzam e formam toda uma rede onde o ser humano nos é desvelado, revelado.
Personagens – reinventadas com corninhos, caudas de peixe ou quase translúcidas – poetizam os textos e nos mostram o ser humano naquilo que ele tem de inexplicável, estranho, singular.
E é esta singularidade, esta inventabilidade que dá a sensação, a nós, que a lemos, de liberdade das palavras e do texto – e na verdade essa liberdade existe e se afirma como uma qualidade do próprio texto.
Naturalmente, uma liberdade que o escritor conquista depois de uma vasta obra criada.
Assim este livro, com as suas personagens, os seus percursos e situações, se nos apresenta como um gráfico onde lemos a nossa própria condição humana.