O Pide da Trindade

Francisco Mota

Ao meu amigo Lula (Chaves-Lisboa ) e à sua verborreia maravilhosa

A Cervejaria Trindade, em Lisboa nunca foi um templo gastronómico, com o eterno bife duro, com um molho de margarina derretida e o ovo estrelado dentro duma frigideira de alumínio e umas batatas fritas aceitáveis. A cerveja colmatava aquelas refeições sempre iguais, porque não havia dinheiro para os mariscos congelados e não desejávamos comer bacalhau à Braz, ultimamente feito com ovos em pó. No entanto é um templo de convívio, de conversa, de encontro com um passado de muitos anos, debaixo daqueles azulejos maçónicos e duns tectos muito altos.

Uma noite, já tarde, aí nos juntámos quatro amigos, para uma ceia com o inevitável bife. Seria na Primavera de 1973. O nosso amigo Lula, antes que pedíssemos a comida e a cerveja, começou ansiosamente a contar a guerra do futebol em Chaves. As coisas passaram-se mais ou menos assim: o Desportivo de Chaves estava quase a subir à segunda divisão, quando, numa jogada de secretaria, foi descaradamente roubado e preterido nessa subida. A população de Chaves revoltou-se e iniciou um processo de manifestações, de greves, de reuniões contínuas, em protesto contra a decisão, ameaçando com a dissolução do clube. Contou o Lula, naquela noite, que as pessoas decidiram que o município de Chaves já não estava em Portugal e que tinha aderido a Espanha. Então, nos limites do concelho, montaram uns controles policiais e aduaneiros, fazendo parar os carros e pedindo o passaporte aos ocupantes. Ao lado numa mesa, uns carimbos, uma bandeira de Espanha e uns papéis. Os carros paravam e os seus ocupantes não entendiam nada. A «polícia» flaviense explicava as razões e depois lá deixava passar os carros. Quando paravam na cidade e tomavam um café, o preço era de «dez pesetas». Neste ponto da explicação, eu reparei que na mesa ao lado estava um homem de meia idade, que cada vez comia mais lentamente o seu bife e que era todo ouvidos para a nossa mesa. Um dos amigos tinha saída há pouco da prisão de Caxias e eu tinha medo por nós e por ele. Os outros não podiam ver o nosso vizinho, dada a colocação da mesa. Adivinhando o que se avizinhava, tentei mudar de conversa: «estes tipos de Chaves são muito transmontanos, mas nunca vão para o lado de Bragança. E aquilo é bem bonito, por exemplo, logo a seguir está Rebordelo num alto ao pé do Rabaçal que é um rio lindo e deve estar cheio de trutas». O Lula ofendeu-se «vai à fava mais as trutas, este gajo só pensa em comer, e além disso vocês têm a mania que só no Sul se fazem greves e manifestações, mas nunca fizeram uma como esta» (eu arrepiava-me, cada vez nos enterrávamos mais!). Alguém perguntou: «então e a polícia de Chaves que faz?» «Nada, porque os polícias de Chaves também estavam de acordo com a gente, a cidade só tinha a ordem do povo e tiveram que trazer a polícia de choque do Porto. Estava toda a gente no Largo das Freiras, quer de Chaves, quer das aldeias e concelhos à volta, a assobiá-los, quando o Xande tirou uma grande pedra da rua e a atirou contra a polícia, passando a poucos centímetros da cara dum deles». Nesta altura, eu via que o nosso vizinho, que para mim era claramente um «pide» tinha deixado o bife a meio e estava quase a cair da cadeira para nos ouvir melhor. Eu já suava, fazia sinais ao Lula, que ele era incapaz de entender e até protestava «tu hoje estás esquisito!». E continuava «depois da pedra a polícia carregou contra os milhares de pessoas e tudo desatou numa fuga desordenada, ainda que algum polícia tenha levado com alguma paulada ou com uma pedrada. A polícia podia ganhar a batalha, mas era claro que mal saíssem de Chaves a situação voltaria ao mesmo e eles não podiam ficar ali toda a vida». O «pide» continuava imóvel e quase virado para nós. Eu suava cada vez mais, apesar das imperiais que ia pedindo, para interromper o Lula. «Parece que a solução que vão encontrar é que subam dois clubes». Segundo me consta foi isso que fizeram, para acalmar a gente de Chaves.

No momento em que o Lula tinha acabado o seu relato, que logicamente não vinha nos jornais, o nosso vizinho levantou-se e dirigiu-se para nós (eu pensei: é agora!). Dirigiu-se a mim e disse: «o senhor conhece a minha terra, Rebordelo? É muito bonita e é tal e qual como disse à bocado. Quanto à guerra de Chaves, também ma contaram assim como este senhor disse. Aquilo foi uma roubalheira. De Rebordelo foi gente para Chaves, para as manifestações. Os senhores desculpem eu ter estado a ouvir tudo, mas é que há muitos anos que estou em Lisboa, vou poucas vezes à terra e é uma maravilha vir aqui comer um bife e que comecem a falar da minha terra e da cidade de Chaves. Hoje tive um grande dia. Muito obrigado!».

Só então pude explicar aos amigos o medo com que tinha vivido a última hora, ao que o Lula me respondeu: «És um caguinxas, como é que um tipo tão porreiro ia ser da pide.» Pedi uma caneca para molhar a garganta, que estava seca há muito tempo.



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