Um modo de dizer

Correia da Fonseca

Uma breve frase, se é que chega a ser tanto, tem sido ou­vida re­pe­ti­da­mente na te­le­visão de há uns tempos para cá. Terá ou não sur­gido numa alo­cução do Papa Fran­cisco, não estou certo disso, mas estou certo de que é con­sequência da in­flexão que lhe é atri­buída, de­certo com jus­teza, quanto à gestão da vida po­lí­tica do Va­ti­cano, que como se sabe é um Es­tado in­de­pen­dente e so­be­rano, e mais ainda no que se re­fere à gestão pas­toral do pa­pado e da Igreja Ca­tó­lica no mundo. Essa frase, ou talvez ex­pressão vo­ca­bular, ou talvez fór­mula ou apenas um modo de dizer, é «opção pelos po­bres», e é no mí­nimo sim­pá­tica e pro­mis­sora, não pa­re­cendo de mais acres­centar que é im­por­tante e cheia de im­pli­ca­ções. Uma delas é a de que o Papa está con­victo de que a «opção pelos po­bres» ainda não está in­tei­ra­mente feita pela Igreja de que ele é agora o su­premo res­pon­sável, e será es­cu­sado su­bli­nhar o re­levo de que essa im­plí­cita cons­ta­tação se re­veste. Outra das im­pli­ca­ções é a de que os po­bres existem e são cre­dores de uma atenção que se adi­vinha dever ser ur­gente. É que, tal como acon­tece com os ve­lhos, que não podem es­perar porque para tanto lhes falta o tempo, também os po­bres não podem ser re­me­tidos para uma es­pécie de fila de es­pera sem aten­di­mento à vista porque de um outro modo também o tempo se ar­risca a faltar-lhes. Na ver­dade, mesmo apenas um olhar breve sobre o vasto mundo nos en­sina que não se morre apenas porque a ve­lhice chegou e não é eterna, mas também porque a al­guns mi­lhões de cri­a­turas hu­manas faltam, muito antes desse tempo, as mais ele­men­tares con­di­ções de so­bre­vi­vência. Por vezes, a te­le­visão mostra-nos ima­gens que dão tes­te­munho do au­tên­tico mas­sacre de cri­anças a quem, so­bre­tudo no cha­mado Ter­ceiro Mundo di­a­ri­a­mente es­po­liado pelos países ditos de­sen­vol­vidos, é re­cu­sado o di­reito de viver. Esses são por­ven­tura os mais po­bres dos po­bres, mas isso não pode levar-nos a es­quecer os po­bres de todos os cantos do mundo, mesmo os de países com ou­tras e não tão ter­rí­veis con­di­ções de vida. Como o nosso, por exemplo.

As pa­la­vras e a prá­tica

Temos, pois, que uma re­le­van­tís­sima fi­gura da cena mun­dial de­cidiu anun­ciar a «opção pelos po­bres», sua e da ins­ti­tuição que lhe foi for­mal­mente con­fiada. É ex­ce­lente e é belo, mas a ex­ce­lência e a be­leza da de­cisão e das pa­la­vras que a re­ve­laram apelam para con­sequên­cias no plano da prá­tica. Como bem se com­pre­ende, o anúncio apenas verbal de uma opção, ainda que papal, não dá de comer a nin­guém, e quem fala de co­mida terá de usar a pa­lavra como sím­bolo de ou­tras es­pé­cies de ali­men­tação que in­cluem aquilo que no nosso País pode e deve ser de­sig­nado por di­reitos cons­ti­tu­ci­o­nais: ha­bi­tação, saúde, edu­cação. Talvez numa só ex­pressão: dig­ni­dade na ci­da­dania. E neste quadro cabe de pas­sagem uma ob­ser­vação ri­go­ro­sa­mente jus­ti­fi­cada: a de que a Cons­ti­tuição da Re­pú­blica Por­tu­guesa é um do­cu­mento so­li­da­mente cristão, o que vem sendo sin­gu­lar­mente es­que­cido por su­postos cris­tãos que muito a hos­ti­lizam e par­ti­cu­lar­mente pelo par­tido que no ac­tual go­verno por­tu­guês se re­clama de per­tença à de­mo­cracia cristã. Agora, porém, acon­teceu que o Papa Fran­cisco enun­ciou uma «opção», e que esse enun­ciado não pode ser en­ten­dido como apenas «um modo de dizer», ex­pressão esta que muitas vezes é lida como uma ver­ba­li­zação que não é pre­ciso levar muito a sério. Na ver­dade, as pa­la­vras do Papa, e estas em es­pe­cial, são di­rec­trizes para levar à prá­tica pois, que diabo!, Jorge Mario Ber­go­glio não veio de Bu­enos Aires para Roma para brincar ao faz-de-conta. Bem basta o risco que con­sis­tirá em que a fór­mula «opção pelos po­bres» seja in­ter­pre­tada por al­guns fa­ri­seus como a con­ve­ni­ência de que, afinal, sempre haja po­bres em favor dos quais seja feita a opção. Em ver­dade, a mais justa in­ter­pre­tação da di­rec­tiva papal será a de que o ob­jec­tivo final da opção anun­ciada seja a ex­tinção dessa forma des­qua­li­fi­cada de ser gente que é a po­breza. «Gente», es­crevo ou digo eu; Fran­cisco dirá de­certo «ir­mãos». É a hora e a vez de todos pas­sarem à prá­tica esse ho­ri­zonte de fra­ter­ni­dade.



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