As cartas viciadas do baralho agroalimentar

Jorge Messias

«A escravatura sobrevive e é necessária em todos os modos de produção que promovem a exploração do homem pelo homem… em particular na actual e derradeira fase do capitalismo – o imperialismo – e, sobretudo nos países coloniais e semicoloniais… Os capitalistas apenas transformaram o chicote da escravidão feudal na mais cruel fome orgânica e intelectual que a Humanidade jamais conheceu!» (A Nova Democracia, 15 Abril 2013).

«Em articulação com as grandes empresas que controlam o mercado das sementes e a distribuição mundial de cereais, o capital financeiro investe no mercado de futuros

(ou especulação), na expectativa de que os preços continuarão a subir... Quanto mais altos forem os preços, mais fome haverá no mundo, maiores serão os lucros das empresas e os ganhos dos investimentos financeiros» Desemprego Zero», Filantropia e capitais de risco, 2007).

«Apesar dos muitos escândalos e envolvimentos com a Máfia, a Igreja jamais perdeu as suas fortunas e não paga impostos em quase todos os estados do mundo… Por exemplo, o museu do Vaticano possui 120 000 obras de arte de enorme valor e é dono de mais de 100 mil grandes parcelas de terreno em todo o mundo... Só na Alemanha, o Vaticano detém mais que meio trilião de euros no imobiliário… Pode movimentar dinheiro da maneira que bem entender e investir nos grandes mercados» («O lado oculto da Igreja Católica, Malaquias da Silva, 2012).

«A fome, a sede, a falta de professores, o desemprego, a corrupção, a pobreza, as greves, o analfabetismo, a desigualdade social, o racismo, todos estes problemas são da responsabilidade da burguesia capitalista» (Allan Xavier, «Caderno Diário»)

Agora que em Roma surgiu um novo papa, e, em Portugal, os católicos conhecem um outro cardeal, será oportuno perguntar-se se a Igreja continuará igual a si própria ou se irá mudar…

Uma observação, em poucas palavras: o tema terá algum interesse mas trata-se de uma falsa questão: mudam os crentes, porque são humanos; mas a sua Igreja nunca muda, porque não pode mudar. Está definitivamente acorrentada à defesa dos interesses do mundo que criou ou ajudou a criar. A hierarquia católica é capitalista.

Como tal, procura o lucro material e o poder.

A explosiva situação do capitalismo mundial evidencia a verdadeira condição da hierarquia católica. O imperialismo aventureiro criou um autêntico beco sem saída. Cresce a miséria e cresce a concentração das fortunas. A velha classe média é destruída para dar lugar a uma nova burguesia composta por tecnocratas iluminados, formados para servirem o grande capital. Para trás, ficam multidões de falidos, desempregados, esfomeados, vagabundos, pedintes... Uma parte deles, irá constituir o exército de reserva dos ricos. Os outros, são já fantasmas. Condenados à morte que serão executados pelas epidemias, pela fome, pelo terrorismo do Estado ou nas pavorosas guerras que se aproximam. 1% dos ricos possui, já, 43% da riqueza produzida pelo trabalho; para 58% dos povos, sobejam 15% dos bens gerados em todo o mundo. O fosso entre pobres e ricos não cessa de crescer a uma cadência vertiginosa.

A Igreja romana participa activamente no projecto neocapitalista. Forma, na suas universidades, os especialistas do liberalismo financeiro illuminati; lava os dinheiros sujos nos seus offshores; reúne capitais fabulosos, à sombra das concordatas e da todo-poderosa rede bancária mundial que o Vaticano dirige; e alimenta poderosas formações secretas essenciais ao imperialismo do grande capital.

Tudo isto está ancorado no tempo. A Igreja não é assim, de agora. Foi sempre assim. Ingénuo seria pensar-se que o que vem de há séculos pode, agora, mudar.

Um dos capítulos mais cínicos destas actividades subterrâneas reside, sem dúvida, na chamada ajuda alimentar na luta contra a fome. Trata-se, em teoria, de uma movimentação espontânea do voluntariado reunido em torno da luta contra a fome, numa perspectiva social não-lucrativa. Na realidade, o objectivo é formar uma rede de obediência católica que reúna milhares de cidadãos bem intencionados e mal informados sobre as causas reais da miséria e da fome.

A forma típica de organização dos núcleos dessa associação caritativa é a bancária o que, por si só, sugere as relações preferenciais existentes entre a Igreja católica e o capitalismo internacional. Depois, os bancos interligam-se em malha, formando pirâmides financeiras e de poder.

O ciclo que se segue é o de mais (e não de menos) fome em toda a terra.



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