Baixou a tensão em Moçambique
Em Moçambique baixou a tensão das últimas semanas. A Frelimo, partido no poder, e a Renamo, na oposição, estão a conversar sobre os problemas que as dividem.
Incidentes sangrentos ocorridos na zona centro do país tinham feito soar os tambores de guerra, depois de duas décadas de paz.
Militantes armados da Renamo assaltaram uma esquadra da polícia em Muxúnguè, em Sofala, provocando cinco mortos e 10 feridos. Em outras acções, homens fardados atacaram na província de Manica um camião-cisterna e um autocarro, causando a morte de três civis. As viaturas circulavam na EN1, a principal estrada ligando o Sul ao Norte.
O governo responsabilizou a Renamo pelos ataques, que provocaram pânico na população local, paralisaram os transportes na zona e reduziram o turismo no parque da Gorongosa.
O conflito está agora a ser negociado directamente entre delegações da Renamo e do governo, depois de declarações apaziguadoras tanto do presidente Armando Guebuza como do dirigente oposicionista, Afonso Dlhakama.
Ultimamente, as ameaças belicistas da Renamo tinham subido de tom e prenunciavam o ressurgir da violência. O seu líder havia deixado Maputo e fora viver para a zona da Gorongosa, bastião dos bandidos durante a guerra civil (1976-1992).
Derrotada pela Frelimo nas urnas em todos os escrutínios realizados nos últimos 20 anos, a Renamo exige agora a mudança das leis eleitorais, ameaça impedir as eleições locais deste ano, reivindica a integração dos ex-guerrilheiros e a «despartidarização» das forças armadas. Em suma, quer a partilha do poder com a Frelimo.
Estas exigências de Dlhakama estarão relacionadas com o início da exploração de carvão e com a descoberta de enormes reservas de gás natural no Norte de Moçambique. Os líderes da Renamo consideram-se com direito a uma parte dos benefícios da exploração dessas riquezas, até para cumprirem promessas que fizeram aos seus combatentes, muitos dos quais nunca terão abandonado áreas da antiga guerrilha à espera das regalias da paz.
Após a independência de Moçambique em 1975, a Rodésia racista de Ian Smith e a África do Sul do «apartheid», com apoio do Ocidente, armaram e financiaram a Renamo. Os bandidos desencadearam contra o jovem estado uma cruel guerra, tendo cometido crimes hediondos contra as populações e paralisado a economia do país. Calcula-se que, em 16 anos de conflito, tenham morrido mais de um milhão de pessoas.
Samora Machel primeiro e, depois do seu assassinato, o presidente Joaquim Chissano, levaram a cabo negociações visando a paz, com a mediação de uma congregação católica italiana. Em 1992 foi assinado em Roma um acordo entre o governo moçambicano e a Renamo, que conduziu a eleições multipartidárias e à transformação do movimento de bandidos em partido político.
Para além dos erros e desvios da Frelimo, a Renamo nunca se adaptou bem à paz e à democracia e disso são prova os recentes incidentes, por agora ultrapassados.
Almirante e traficante
Um outro país, a Guiné-Bissau, continua a ser notícia pelas piores razões – a ligação de governantes ao narcotráfico.
Os Estados Unidos capturaram numa operação «em alto mar, junto à zona marítima de Cabo Verde» o almirante Bobu na Tchuto, ex-chefe de Estado-Maior da armada guineense.
Os pormenores da captura são escassos mas sabe-se que a operação foi montada pela agência norte-americana de combate ao narcotráfico (DEA) e contou com apoios dos serviços secretos de vários países, incluindo Portugal.
Na Tchuto e quatro cúmplices foram atraídos a uma cilada por agentes disfarçados de traficantes. Transportado para os Estados Unidos, o almirante está a ser interrogado pela Justiça e, se for julgado culpado, arrisca-se a prisão perpétua.
O almirante e outros golpistas, incluindo o chefe da força aérea, general Papa Camará, são acusados de participarem do tráfico de droga entre a Colômbia e a Europa, com passagem pela África Ocidental. O negócio da cocaína «em trânsito» pela Guiné-Bissau, de milhões de dólares, envolveria não só Na Tchuto mas também a cúpula militar e civil. Mais: o «almirante cocaína» é suspeito de ligações à Al-Qaida do Magrebe Islâmico e de ter assassinado um agente da DEA que actuava encoberto.
A prisão de Na Tchuto (balanta, como o ex-presidente Kumba Yala e o líder dos golpistas, general António Indjai, seus comparsas em golpes, assassinatos, fugas e traficâncias) comprova a tese de que Guiné-Bissau, um ano depois do golpe militar de 12 de Abril de 2012, afunda-se no lodaçal do narcotráfico regional e internacional.