Um motorista no palácio de Miraflores
De acordo com o primeiro boletim do Conselho Nacional de Eleições (CNE), que mostrava já uma tendência irreversível, Nicolás Maduro, continuador do processo revolucionário bolivariano, triunfou sobre o candidato anti-chavista com uma vantagem de mais de 230 mil votos: 7 505 338 (50,66 por cento) contra 7 270 403 (49,7 por cento).
Esta é a 17.ª vitória bolivariana em 18 eleições nos últimos 14 anos
Este primeiro boletim foi emitido com 99,12 por cento das actas transmitidas, e aponta para uma participação relativa de 78,71 por cento do total das eleitoras e dos eleitores aptos para exercerem o seu direito de voto.
No conjunto dos 18 processos eleitorais realizados em 14 anos de um processo progressista originalíssimo, esta é a 17.ª vitória das forças revolucionárias, mas é igualmente a mais estreita de todas elas. Conseguida num contexto particularmente difícil, a pouco mais de um mês da morte do líder máximo da revolução bolivariana, a reacção interna e externa concentrou todos os seus recursos financeiros e de manipulação mediática nesta batalha, com o objectivo de recuperar os privilégios que começou a perder – desfruta ainda de muitos deles – a partir de 1999. Todas as baterias e toda a guerra mediática que ao longo de 14 anos estiveram viradas contra Hugo Chávez, mudaram de alvo nas últimas semanas.
Na tentativa de demonizarem a figura de Nicolás Maduro – os seus defeitos menores eram ter sido motorista de autocarro e não possuir um título académico –, chegaram mesmo à loucura cínica de elogiarem Chávez, esquecendo que o insultaram todos os dias e que o assassínio de Hugo Chávez era uma opção acarinhada por amplos círculos da direita, magnicídio que sempre negaram, mas que foi admitido há poucas semanas por Otto Reich, ex-funcionário de proa do governo de Ronald Reagan, que, num artigo publicado no Foro das Américas, afirmou ter avisado Chávez, através do embaixador norte-americano em Caracas, de que o queriam matar. Num arrebato de cinismo típico deste cubano-americano, escreveu mesmo que «nós, provavelmente, impedimos o seu assassinato em mais de uma ocasião». Só temos de esperar algumas décadas para que Washington revele quem queria fazer desaparecer fisicamente o presidente venezuelano.
Mau perder golpista
Salta à vista que uma oposição que gritou «fraude!» nas 17 derrotas anteriores o faria também nesta ocasião. Para ela, perder por quase 235 mil votos não é perder, e, como em ocasiões anteriores, desconhece a vitória dos bolivarianos. Os insultos contra o CNE, que têm sido uma constante ao longo de 14 anos, tornam-se mais insistentes no contexto actual. O sistema eleitoral venezuelano, o melhor do mundo segundo o ex-presidente Carter, é alvo sistemático das críticas da direita venezuelana, e ainda que preveja a contagem manual de 53 por cento das urnas de votação, Capriles Radonski, que bem poderia entrar no livro de Recordes do Guinness por perder duas eleições presidenciais em menos de seis meses, exige que se abra e conte manualmente todos os votos, processo que levará provavelmente várias semanas, antes de reconhecer que foi derrotado. Maduro já aceitou que se faça essa contagem a bem da verdade e da governabilidade do país. Nada garante, contudo, que no final da contagem Capriles aceite a verdade dos números. A história recente dos processos eleitorais venezuelanos demonstra, para lá de qualquer dúvida, que os resultados eleitorais só são bons quando a direita ganha.
Dois exemplos bastam para pôr em evidência o que afirmamos. Primeiro caso: em 2005, num referendo, deu-se a primeira (e única) derrota eleitoral do governo bolivariano por uma diferença de menos de 125 mil votos. Hugo Chávez deu os números por bons sem qualquer «mas». Segundo caso: em 2012, Capriles revalidou a governação do Estado Miranda com uma vantagem de pouco mais de 45 mil votos. O candidato bolivariano aceitou as cifras sem qualquer objecção.
Não há nada de novo nesta maneira de olhar os números. Em Outubro de 2012, poucos dias antes da vitória aluvial de Hugo Chávez, o opositor Ramos Allup, do partido Acção Democrática, antecipando a sua posição de desconhecer uma vitória bolivariana, afirmou que se Capriles ganhar «por um voto, só por um, toda a gente acreditará», mas se Chávez vencer «por um voto, ninguém acreditará». Nada de novo!
Entretanto, pelas redes sociais, corre agora uma mensagem: «se desestabilizarmos todos os dias, triunfaremos dentro de seis anos»... Já sabemos o que se está a cozinhar...
Um motorista no palácio de Miraflores? A direita não pode tolerar tal coisa.
PCP saúda triunfo bolivariano
O Secretário-geral do PCP endereçou ao presidente da República Bolivariana da Venezuela as «felicitações e alegria» dos comunistas portugueses pela sua eleição. Em carta endereçada a Nicolás Maduro, Jerónimo de Sousa sublinhou a «importante vitória (…) indissociável dos avanços democráticos, no plano económico, social, político e cultural e de afirmação da soberania do povo venezuelano, que confirma a expressa vontade em prosseguir o processo de transformação social iniciado pelo Comandante Hugo Chávez».
Esta resultado eleitoral «é também uma vitória para todas as forças, homens e mulheres que pelo mundo intervêm e aspiram pelo progresso social e pela paz, por um mundo melhor», acrescenta, antes de reafirmar, «neste momento crucial para a Venezuela, a nossa firme solidariedade para com a revolução bolivariana e a luta dos trabalhadores e do povo venezuelano em defesa e no prosseguimento das suas conquistas, da sua soberania nacional, do presente e futuro da sua pátria, do socialismo».
Ao Partido Comunista da Venezuela e ao Partido Socialista Unido da Venezuela, o Secretariado do Comité Central do PCP endereçou, igualmente, mensagens de felicitações pelo triunfo nas presidenciais de 14 de Abril, nas quais salienta que, «nas presentes circunstâncias, e contrariando todas as dificuldades e a poderosa campanha movida pelas forças da direita, aliadas ao imperialismo, este triunfo eleitoral possui um significado determinante para a revolução bolivariana com repercussões para a luta dos povos e trabalhadores que ultrapassam largamente as fronteiras venezuelanas, confirmando a força do legado do Comandante Chávez», denuncia «as manobras perigosas dos sectores alinhados com o imperialismo que tentam assim ocultar a nova derrota sofrida» e exige «respeito pela vontade expressa pelo povo da Venezuela».