O «paradigma»

Henrique Custódio

Ao tomar posse, Passos Coelho disse: «vamos criar em Portugal um novo paradigma».

Ele aí está, o paradigma: miséria generalizada nos desempregados e reformados – ambos aos milhões, nenhum a descortinar como sobreviver no dia a dia, todos lançados na desgraça em que se encontram.

E os desempregados vão dos operários aos chefes das empresas falidas, passando pelos recém-licenciados que, às dezenas de milhares,vagueiam sem destino neste País violentamente desestruturado – e tudo em menos de dois anos de governação.

Em suma, parece que o primeiro-ministro se vê como um deus ex maquina que, do alto da sua omnipotência, vai mexendo em Portugal como quem movimenta peças num tabuleiro, desprezando tranquilamente a devastação social que provoca em cada «movimento das peças».

Passos, ao dizer que o País está infestado «de piegas» ou que o desemprego dos jovens era «uma janela de oportunidade» para «emigrar» mostra que este pretenso estadista não sabe o que diz e, por isso, diz apenas o que sabe sobre o País – que é muito escasso e, por isso, um escândalo obsceno num primeiro-ministro.

Esta ignorância aponta para uma questão de classe e de cultura: Passos nasceu em Coimbra e foi de imediato com a família para Angola, donde regressou após o 25 de Abril e, ao chegar «à Metrópole», aninhou-se aos 14 anos no PSD, onde se aplicou numa longa carreira política na «jota», até trepar em cargos modestos, onde se destaca o de deputado. Ao longo destas décadas deambularia por alguns cursos, até se conseguir licenciar aos 37 anos numa universidade privada. Aliás, um percurso académico paralelo ao de Miguel Relvas, seu «compagnon de route» desde a adolescência e, segundo palavras despeitadas do próprio (quando há dias se demitiu), terá sido ele a manobrar dentro do PSD para levar Passos à direcção do partido e do País.

De facto, só há uma explicação plausível para Passos não ter demitido o escandaloso ministro Relvas – a de uma cumplicidade antiga e recíproca, o que expõe a mediocridade de ambos, nivelando Passos, politicamente, com o rasteiro e amoral que se expôs em Relvas.

Entretanto, o «paradigma» consiste num autêntico golpe de Estado que, justificado com a troika e a suserana Merkel, Passos pretende legitimar. A coberto da troika, o homem ambiciona varrer do País qualquer resquício das conquistas sociais trazidas pela Revolução – não sabemos se, por ter regressado de Angola aos 10 anos, julga ter contas a ajustar com a Revolução de Abril e a descolonização. E se não julga, até parece.

O que sabemos, do fundo do clamor do País contra esta usurpação social, é que chegou a hora de expulsar Passos Coelho do desgoverno do País e eleger rapidamente um Executivo que faça o que recomendou esta semana o Nobel da Economia norte-americano Paul Krugman: que Portugal profira um rotundo Não a quem queira impor mais cortes e sacrifícios ao povo português. E disse o «não» em Português.



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