Para que a verdade não morra

Albano Nunes (Membro do Secretariado)

Es­crever neste mo­mento sobre a es­ca­lada de con­fron­tação na Pe­nín­sula da Co­reia é a vá­rios tí­tulos um risco, mas um risco que é ne­ces­sário correr. A es­ca­lada de acu­sa­ções, ame­aças e mo­vi­men­ta­ções mi­li­tares, sendo in­fe­liz­mente re­cor­rente na re­gião, atingiu uma tal di­mensão, que a si­tu­ação pode ficar fora de con­trole e con­duzir à guerra.

Os EUA são os grandes res­pon­sá­veis pela si­tu­ação na Pe­nín­sula da Co­reia

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Como de cos­tume, es­tamos con­fron­tados com um quadro me­diá­tico em que o dedo acu­sador é apon­tado apenas a uma parte, a Re­pú­blica De­mo­crá­tica Po­pular da Co­reia, en­quanto os EUA são des­critos como im­po­lutos guar­diões da le­ga­li­dade in­ter­na­ci­onal (que, como se viu no Iraque ou se vê hoje na Síria, cons­tan­te­mente tri­pu­diam) e dos di­reitos hu­manos (cujo apego pode medir-se pelos cen­tros se­cretos de tor­tura que es­pa­lharam pelo mundo ou pela sua po­lí­tica de ex­ter­mínio «se­lec­tivo» com os so­fis­ti­cados drones). Este ma­ni­queísmo que lança uma densa cor­tina de fumo sobre a re­a­li­dade tem de ser fron­tal­mente con­tra­riado. O que está em causa é de­ma­siado sério para deixar campo livre aos mesmos que ven­deram as mon­ta­nhas de men­tiras que ser­viram de pre­texto para a guerra à Ju­gos­lávia, a in­vasão do Iraque ou a des­truição da Líbia, e que, como se vê em re­lação a Is­rael, que tem a arma nu­clear e ameaça uti­lizá-la, têm pesos e me­didas di­fe­rentes para julgar países na sua re­lação com a questão nu­clear.

Isto não ex­clui pre­o­cu­pa­ções com o modo como os di­ri­gentes da RDPC têm li­dado com as ame­aças à sua se­gu­rança, por muito que jul­guem que a exi­bição de força e a re­tó­rica mi­li­ta­rista te­nham ob­jec­tivos dis­su­a­sores e visem pesar na mesa de ne­go­ci­a­ções. Há actos e afir­ma­ções que jus­ti­ficam pre­o­cu­pação e que, aliás, estão a ser uti­li­zados para tentar isolar a RDPC e jus­ti­ficar o re­forço mi­litar norte-ame­ri­cano na re­gião. Os di­ri­gentes norte-co­re­anos co­me­te­riam um grave erro se não dessem ou­vidos aos apelos à con­tenção, so­bre­tudo quando eles provêm, como no caso da China e de Cuba (com o ve­e­mente apelo de Fidel de Castro), de amigos e ali­ados em­pe­nhados no res­peito pela so­be­rania e in­te­gri­dade ter­ri­to­rial da RDPC.

Mas seja qual for a opi­nião sobre as ra­zões e o modo como os di­ri­gentes norte-co­re­anos estão a lidar com a si­tu­ação, im­porta não perder de vista o es­sen­cial, si­tuar a pe­ri­go­sís­sima es­ca­lada de tensão ac­tual no seu con­texto his­tó­rico e en­qua­dra­mento in­ter­na­ci­onal e trazer para o pri­meiro plano da luta das ideias ques­tões que têm sido se­cun­da­ri­zadas e mesmo ig­no­radas pela co­mu­ni­cação so­cial.

Olhar para o es­sen­cial

Por exemplo, que o povo co­reano nunca ocupou outro país mas co­nheceu a ter­rível ocu­pação ja­po­nesa (1910/​45), so­freu mi­lhões de mortos na guerra im­pe­ri­a­lista de 1950/​53 e luta há ses­senta anos pela reu­ni­fi­cação in­de­pen­dente e pa­cí­fica da sua pá­tria. Ou o facto de os EUA man­terem na re­gião um im­pres­si­o­nante dis­po­si­tivo mi­litar hostil à RDPC e re­a­li­zarem pe­ri­o­di­ca­mente, como agora até ao fim de Abril, ma­no­bras mi­li­tares que são au­tên­ticos en­saios de guerra. Ou ainda, em re­cente ar­tigo de Ga­reth Evans, ex-MNE da Aus­trália e Pre­si­dente do Grupo In­ter­na­ci­onal de Crise, a con­fir­mação da má fé dos EUA e seus ali­ados no im­por­tante acordo de 2004 com a RDPC sobre as ins­ta­la­ções nu­cle­ares de Yongbyon: «ar­ras­támos os pés na cons­trução de re­ac­tores nu­cle­ares e na en­trega do pro­me­tido fu­e­lóleo pe­sado, em parte de­vido a uma crença ge­ne­ra­li­zada de que o co­lapso do re­gime es­tava emi­nente» (Pú­blico de 20.02.13), con­fissão que mostra a con­fi­ança que me­rece a pa­lavra do im­pe­ri­a­lismo.

Mas é ne­ces­sário ir ainda mais longe e apontar sem ro­deios os EUA como o grande res­pon­sável pela pe­ri­gosa si­tu­ação criada e de­nun­ciar a sua es­tra­tégia de tensão numa re­gião da mais alta im­por­tância geo-po­lí­tica, es­tra­tégia que visa ali­mentar uma das mai­ores con­cen­tra­ções de ar­ma­mento do globo, his­to­ri­ca­mente ori­en­tada contra a URSS (hoje contra a Rússia) e contra a China, país que os EUA apontam cada vez mais aber­ta­mente como «ad­ver­sário es­tra­té­gico». Trata-se de de­nun­ciar a ace­le­ração da mi­li­ta­ri­zação do Pa­cí­fico, a Norte e a Sul, efec­tuada em li­gação com o re­lan­ça­mento do mi­li­ta­rismo ja­ponês. Trata-se de alertar para que, a pre­texto da «ameaça norte-co­reana» os EUA, que já aí têm ar­ma­mento nu­clear, estão a des­locar para a re­gião sis­temas anti-míssil, bom­bar­deiros nu­cle­ares, drones e ou­tros so­fis­ti­cados meios mi­li­tares.

A gra­vi­dade da si­tu­ação não con­sente dis­tração do es­sen­cial: a po­lí­tica mi­li­ta­rista agres­siva do im­pe­ri­a­lismo. A pro­fun­di­dade da crise do ca­pi­ta­lismo traz no seu bojo ten­ta­ções aven­tu­reiras a que é ne­ces­sário dar firme com­bate, desde logo no plano das ideias. Se numa guerra a ver­dade é a pri­meira coisa a morrer, tudo fa­remos para que ela não morra.



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