Para que a verdade não morra
Escrever neste momento sobre a escalada de confrontação na Península da Coreia é a vários títulos um risco, mas um risco que é necessário correr. A escalada de acusações, ameaças e movimentações militares, sendo infelizmente recorrente na região, atingiu uma tal dimensão, que a situação pode ficar fora de controle e conduzir à guerra.
Os EUA são os grandes responsáveis pela situação na Península da Coreia
Como de costume, estamos confrontados com um quadro mediático em que o dedo acusador é apontado apenas a uma parte, a República Democrática Popular da Coreia, enquanto os EUA são descritos como impolutos guardiões da legalidade internacional (que, como se viu no Iraque ou se vê hoje na Síria, constantemente tripudiam) e dos direitos humanos (cujo apego pode medir-se pelos centros secretos de tortura que espalharam pelo mundo ou pela sua política de extermínio «selectivo» com os sofisticados drones). Este maniqueísmo que lança uma densa cortina de fumo sobre a realidade tem de ser frontalmente contrariado. O que está em causa é demasiado sério para deixar campo livre aos mesmos que venderam as montanhas de mentiras que serviram de pretexto para a guerra à Jugoslávia, a invasão do Iraque ou a destruição da Líbia, e que, como se vê em relação a Israel, que tem a arma nuclear e ameaça utilizá-la, têm pesos e medidas diferentes para julgar países na sua relação com a questão nuclear.
Isto não exclui preocupações com o modo como os dirigentes da RDPC têm lidado com as ameaças à sua segurança, por muito que julguem que a exibição de força e a retórica militarista tenham objectivos dissuasores e visem pesar na mesa de negociações. Há actos e afirmações que justificam preocupação e que, aliás, estão a ser utilizados para tentar isolar a RDPC e justificar o reforço militar norte-americano na região. Os dirigentes norte-coreanos cometeriam um grave erro se não dessem ouvidos aos apelos à contenção, sobretudo quando eles provêm, como no caso da China e de Cuba (com o veemente apelo de Fidel de Castro), de amigos e aliados empenhados no respeito pela soberania e integridade territorial da RDPC.
Mas seja qual for a opinião sobre as razões e o modo como os dirigentes norte-coreanos estão a lidar com a situação, importa não perder de vista o essencial, situar a perigosíssima escalada de tensão actual no seu contexto histórico e enquadramento internacional e trazer para o primeiro plano da luta das ideias questões que têm sido secundarizadas e mesmo ignoradas pela comunicação social.
Olhar para o essencial
Por exemplo, que o povo coreano nunca ocupou outro país mas conheceu a terrível ocupação japonesa (1910/45), sofreu milhões de mortos na guerra imperialista de 1950/53 e luta há sessenta anos pela reunificação independente e pacífica da sua pátria. Ou o facto de os EUA manterem na região um impressionante dispositivo militar hostil à RDPC e realizarem periodicamente, como agora até ao fim de Abril, manobras militares que são autênticos ensaios de guerra. Ou ainda, em recente artigo de Gareth Evans, ex-MNE da Austrália e Presidente do Grupo Internacional de Crise, a confirmação da má fé dos EUA e seus aliados no importante acordo de 2004 com a RDPC sobre as instalações nucleares de Yongbyon: «arrastámos os pés na construção de reactores nucleares e na entrega do prometido fuelóleo pesado, em parte devido a uma crença generalizada de que o colapso do regime estava eminente» (Público de 20.02.13), confissão que mostra a confiança que merece a palavra do imperialismo.
Mas é necessário ir ainda mais longe e apontar sem rodeios os EUA como o grande responsável pela perigosa situação criada e denunciar a sua estratégia de tensão numa região da mais alta importância geo-política, estratégia que visa alimentar uma das maiores concentrações de armamento do globo, historicamente orientada contra a URSS (hoje contra a Rússia) e contra a China, país que os EUA apontam cada vez mais abertamente como «adversário estratégico». Trata-se de denunciar a aceleração da militarização do Pacífico, a Norte e a Sul, efectuada em ligação com o relançamento do militarismo japonês. Trata-se de alertar para que, a pretexto da «ameaça norte-coreana» os EUA, que já aí têm armamento nuclear, estão a deslocar para a região sistemas anti-míssil, bombardeiros nucleares, drones e outros sofisticados meios militares.
A gravidade da situação não consente distração do essencial: a política militarista agressiva do imperialismo. A profundidade da crise do capitalismo traz no seu bojo tentações aventureiras a que é necessário dar firme combate, desde logo no plano das ideias. Se numa guerra a verdade é a primeira coisa a morrer, tudo faremos para que ela não morra.