De quem é a culpa?

Aurélio Santos

Passos Co­elho, o seu Go­verno e os par­tidos da di­reita que lhe estão na origem apesar de se ar­ro­garem de de­mo­cratas, dei­xaram mais uma vez bem claro que não su­portam a de­mo­cracia e não con­se­guem con­viver com o normal fun­ci­o­na­mento das ins­ti­tui­ções.

O dis­curso do pri­meiro-mi­nistro, na linha das afir­ma­ções an­te­ri­or­mente feitas pela porta voz do PSD, sobre a de­cisão do Tri­bunal Cons­ti­tui­ci­onal, além de de­ma­gó­gico é de uma in­qua­li­fi­cável in­so­lência, muito ao es­tilo de cri­ança bir­renta que não su­porta ser con­tra­riada.

Em tom dra­má­tico e in­fla­mado veio o sr. pri­meiro-mi­nistro apontar o dedo acu­sador ao Tri­bunal Cons­ti­tu­ci­onal (agora trans­for­mado no bode ex­pi­a­tório dos de­sas­trosos fa­lhanços da po­lí­tica do Go­verno) por este não lhe per­mitir, pasme-se, go­vernar à margem da Cons­ti­tuição.

Quando os nú­meros ficam a qui­ló­me­tros das metas por ele es­ta­be­le­cidas, a culpa não é do Go­verno, é dos nú­meros.

Se a re­a­li­dade con­traria o seu dis­curso a culpa também não é, na­tu­ral­mente do Go­verno, mas ob­vi­a­mente dessa mesma re­a­li­dade que tenta con­trariá-lo.

Agora não é o Go­verno que tenta go­vernar des­res­pei­tando a lei, é a lei que não o deixa go­vernar.

Em suma, para este Go­verno o mundo é que está sempre todo er­rado, e contra ele, porque ele está in­fa­li­vel­mente sempre certo.

E para com­pletar este triste ce­nário temos na Pre­si­dência da Re­pú­blica um se­nhor que pa­rece ter es­que­cido as suas fun­ções e obri­ga­ções como Pre­si­dente e opta por agir como di­ri­gente do par­tido do Go­verno. Ao ser posto pe­rante o di­lema – salvar o País de­mi­tindo o Go­verno, ou salvar o go­verno des­truindo o País – es­colhe salvar o Go­verno, le­vando mesmo ao colo o mi­nistro das Fi­nanças.

Tudo isto acon­tece porque nós dei­xamos, porque per­mi­timos, porque acei­tamos. É tempo de não per­mi­tirmos, de não aceitar. É tempo de correr com este Go­verno que nos des­go­verna.



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